Questão FC337796
Atenção: Leia o trecho inicial do conto "O escrivão Coimbra", de Machado de Assis, para responder a questão. Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião com
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
FCC · 2024
Atenção: Leia o trecho inicial do conto "O escrivão Coimbra", de Machado de Assis, para responder a questão.
Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, - ou depois, - um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.
Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome: mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.
Não deixou logo a irmandade: a esposa pôde contê-lo no exercício do cargo de mesário e levava-o às festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá.
Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religião. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.
Aos sessenta anos, já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.
Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas já aparecia alguém que o convidava a ficar com um bom número, comprava o número e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.
(Adaptado de: ASSIS. Machado de. Contos: uma antologia. volume II. São Paulo: Companhia das Letras. 1998)
Retoma uma expressão mencionada anteriormente no texto a palavra sublinhada em:
- Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana.
- Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém.
- o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã.
- a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.
- Mas lá aparecia alguém que o convidava a ficar com um bonito número, comprava o número e esperava.
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Gabarito
D
Comentário do professor
O da frase funciona como pronome oblíquo átono que retoma um termo mencionado antes no texto.
O referente é "o escrivão Coimbra" (pode-se substituir por "ele" ou por "o escrivão Coimbra").
Assim, a expressão significa: "a idade e depois a solidão... levaram-no a não deixar passar loteria sem bilhete".
Sintaticamente, esse o exerce a função de objeto direto do verbo "levaram".
Ou seja, recebe a ação de "levar" (levou-o a comportar-se de certo modo).
Do ponto de vista textual, trata-se de anáfora — um recurso de coesão por referência que evita repetição e mantém a clareza sobre quem é levado a agir.
Portanto, a alternativa D está correta porque identifica corretamente a referência e a função gramatical do pronome o.
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