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Questão FC337803

Leia o texto “Liberdade e necessidade ao revés”, de Eduardo Giannetti. “Por meios honestos se você conseguir, mas por quaisquer meios faça dinheiro”, preconiza – prenhe de sarcasmo

Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)

FCC · 2023

Leia o texto “Liberdade e necessidade ao revés”, de Eduardo Giannetti.

 

“Por meios honestos se você conseguir, mas por quaisquer meios faça dinheiro”, preconiza – prenhe de sarcasmo – o verso de Horácio. Desespero, precisão ou cobiça, dentro ou fora da lei: o dinheiro nos incita a fazer o que de outro modo não faríamos. Suponha, entretanto, um súbito e imprevisto bafejo da fortuna – um prêmio lotérico, uma indenização milionária, uma inesperada herança. Quem continuaria a fazer o que faz para ganhar a vida caso não fosse mais necessário fazê-lo? Estamos acostumados a considerar o trabalho como algo a que nos sujeitamos, mais ou menos a contragosto, para obter uma renda – como um sacrifício ou necessidade imposta de fora; ao passo que o consumo é tomado como a esfera por excelência da livre escolha: o território sagrado para o exercício da nossa liberdade individual. A possibilidade de satisfazer, ainda que parcialmente, nossos desejos e fantasias de consumo se afigura como a merecida recompensa – ou suborno, diriam outros – capaz de atenuar a frustração e aliviar o aborrecimento de ocupações que de outro modo não teríamos e não nos dizem respeito.

 

Daí que, na feliz expressão do jovem Marx, “o trabalhador só se sente ele mesmo quando não está trabalhando; quando ele está trabalhando, ele não se sente ele mesmo”. – Mas, se o mundo do trabalho está vedado às minhas escolhas e modo de ser; onde poderei expressar a minha individualidade? Impedido de ser quem sou no trabalho – escritório, chão de fábrica, call center, guichê, balcão –, extravaso a minha identidade no consumo – shopping, butique, salão, restaurante, showroom. Fonte de elã vital, o ritual da compra energiza e a posse ilumina a alma do consumidor. A compra de bens externos molda a identidade e acena com a promessa de distinção: ser notado, ser ouvido, ser tratado com simpatia, respeito e admiração pelos demais. Não o que faço, mas o que possuo – e, sobretudo, o que sonho algum dia ter – diz ao mundo quem sou. Servo impessoal no ganho, livre e soberano no gasto.

 

(Adaptado de: GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016)

 

O termo sublinhado em “Estamos acostumados a considerar o trabalho como algo a que nos sujeitamos, mais ou menos a contragosto, para obter uma renda” (1o parágrafo) refere-se a

  1. nos [pronome].
  2. nós [sujeito oculto de “sujeitamos”].
  3. algo.
  4. renda.
  5. contragosto.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Algo. Na oração "a que nos sujeitamos, mais ou menos a contragosto", o pronome que atua como pronome relativo que retoma o antecedente algo presente na oração principal ("considerar o trabalho como algo").

Além disso, a preposição a integra a regência do verbo sujeitar‑se a e, por isso, aparece junto ao pronome relativo: em vez de repetir algo ("a algo nos sujeitamos"), usa‑se a construção "a que nos sujeitamos", evitando a repetição e introduzindo a oração subordinada adjetiva explicativa/especificativa que qualifica o substantivo indefinido algo.

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