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Questão FC337852

Ganhei várias vezes da morte, isto é, inúmeras vezes os papéis que a morte representou para mim não chegaram a ser convincentes ou não chegaram a fazer grande sucesso. Matei várias

Linguagem

FCC · 2023

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

 

Encenação da morte

 

A vida nos quer, a morte nos quer. Somos o resultado da tensão ocasionada pelas duas forças que nos puxam. Esse equilíbrio não é estável. Amplo, diverso e elástico é o campo de força da vida, e vale a mesma coisa para o campo da morte. Se ficamos facilmente deprimidos ou exaltados é em razão das oscilações de intensidade desses dois campos magnéticos, sendo o tédio o relativo equilíbrio entre os dois.

 

Às vezes é mais intensa a pressão da vida, outras vezes é mais intensa a pressão da morte. Não se quer dizer com isso que a exaltação seja a morte e a depressão seja a vida. Há exaltações e exultações que se polarizam na morte, assim como há sistemas de depressão que gravitam em torno da vida. O estranho, do ponto de vista biológico, é que somos medularmente solitários com ambos os estados de imantação mais intensa, os da vida e os da morte. Não aproveitamos apenas a vida, mas usufruímos também as experiências da morte, desde que essas não nos matem.

 

Ganhei várias vezes da morte, isto é, inúmeras vezes os papéis que a morte representou para mim não chegaram a ser convincentes ou não chegaram a fazer grande sucesso. Matei várias mortes. (...) Mas outro dia dei dentro de mim com uma morte tão madura, tão forte, tão irrespondível, tão parecida comigo que fiquei no mais confuso dos sentimentos. Esta eu não posso matar, esta é a minha morte. O Vinícius de Moraes, que entende muito de morte, disse que nesse terreno há sempre margem de erro, e que talvez eu tenha ainda de andar um bocado mais antes de encontrar a minha morte. Pode ser. Não sei. Quem sabe?

 

(Adaptado de CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 246-248, passim)

 

Ao longo do texto o autor se vale de vários paradoxos, tal como o que ocorre na seguinte formulação:

  1. Somos o resultado da tensão ocasionada pelas duas forças que nos puxam.
  2. oscilações de intensidade desses dois campos magnéticos.
  3. Às vezes é mais intensa a pressão da vida
  4. usufruímos também as experiências da morte, desde que essas não nos matem.
  5. O Vinícius de Moraes (...) disse que nesse terreno há sempre margem de erro.
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Gabarito

D

Comentário do professor

"usufruímos também as experiências da morte, desde que essas não nos matem" funciona como paradoxo. A frase aproxima duas ideias logicamente opostas: a morte, entendida como fim absoluto, e o ato de usufruir, associado ao prazer ou aproveitamento.

Ao afirmar que podemos “usufruir” experiências de morte contanto que elas não nos matem, o autor cria uma contradição aparente que obriga o leitor a reavaliar o sentido de "morte": não apenas término biológico, mas também estados limites, transformações ou quase-mortes.

Esse paradoxo reforça a tese do texto sobre a tensão entre vida e morte: permite vivenciar proximidades da morte sem perda definitiva, ressaltando a ambivalência e a riqueza das experiências liminares.

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