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Questão FC337854

Atenção: Leia a crônica “Pai de família sem plantação”, de Paulo Mendes Campos, para responder à questão. Sempre me lembro da história exemplar de um mineiro que veio até a capital

Linguagem

FCC · 2023

Atenção: Leia a crônica “Pai de família sem plantação”, de Paulo Mendes Campos, para responder à questão.

 

Sempre me lembro da história exemplar de um mineiro que veio até a capital, zanzou por aqui, e voltou para contar em casa os assombros da cidade. Seu velho pai balançou a cabeça; fazendo da própria dúvida a sua sabedoria: “É, meu filho, tudo isso pode ser muito bonito, mas pai de família que não tem plantação, não sei não...”

 

Às vezes morro de nostalgia. São momentos de sinceridade, nos quais todo o meu ser denuncia minha falsa condição de morador do Rio de Janeiro. A trepidação desta cidade não é minha. Sou mais, muito mais, querendo ou não querendo, de uma indolência de sol parado e gerânios. Minha terra é outra, minha gente não é esta, meu tempo é mais pausado, meus assuntos são mais humildes, minha fala, mais arrastada. O milho pendoou? Vamos ao pasto dos Macacos matar codorna? A vaca do coronel já deu cria? Desta literatura rural é que preciso.

 

Eis em torno de mim, a cingir-me como um anel, o Rio de Janeiro. Velozes automóveis me perseguem na rua, novos edifícios crescem fazendo barulho em meus ouvidos, a guerra comercial não me dá tréguas, o clamor do telefone me põe a funcionar sem querer, a vaga se espraia e repercute no meu peito, minha inocência não percebe o negócio de milhões articulado com um sorriso e um aperto de mão. Pois eu não sou daqui.

 

Vivo em apartamento só por ter cedido a uma perversão coletiva; nasci em casa de dois planos, o de cima, da família, sobre tábuas lavadas, claro e sem segredos, e o de baixo, das crianças, o porão escuro, onde a vida se tece de nada, de pressentimentos, de imaginação, do estofo dos sonhos. A maciez das mãos que me cumprimentam na cidade tem qualquer coisa de peixe e mentira; não sou desta viração mesclada de maresia; não sei comer este prato vermelho e argênteo de crustáceos; não entendo os sinais que os navios trocam na cerração além da minha janela. Confio mais em mãos calosas, meus sentidos querem uma brisa à boca da noite cheirando a capim-gordura; um prato de tutu e torresmos para minha fome; e quando o trem distante apitasse na calada, pelo menos eu saberia em que sentimentos desfalecer.

 

Ando bem sem automóvel, mas sinto falta de uma charrete. Com um matungo que me criasse amizade, eu visitaria o vigário, o médico, o turco, o promotor que lê Victor Hugo, o italiano que tem uma horta, o ateu local, o criminoso da cadeia, todos eles muitos meus amigos. Se aqui não vou à igreja, lá pelo menos frequentaria a doçura do adro, olhando o cemitério em aclive sobre a encosta, emoldurado em muros brancos. Aqui jaz Paulo Mendes Campos. Por favor, engavetem-me com simplicidade do lado da sombra. É tudo o que peço. E não é preciso rezar por minha alma desgovernada.

 

(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Balé do pato. São Paulo: Ática, 2012)

 

Verifica-se a ocorrência de metonímia em:

  1. um mineiro que veio até a capital.
  2. o promotor que lê Victor Hugo.
  3. pai de família que não tem plantação.
  4. um prato de tutu e torresmos para minha fome.
  5. É tudo o que peço.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Metonímia é a substituição de um termo por outro que mantém relação de proximidade semântica. No trecho "o promotor que lê Victor Hugo", há esse tipo de deslocamento.

Não se trata de o promotor ler literalmente o autor enquanto pessoa, mas sim as obras ou os livros de Victor Hugo. O nome do autor é usado para representar o conjunto de seus textos — procedimento típico da metonímia classificada como autor pela obra.

Assim, o destaque recai sobre a expansão do significado de Victor Hugo, que passa a abranger aquilo que efetivamente é lido: as obras do escritor, não o indivíduo em si.

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