Questão FC337887
Declarou-me uma amiga que passou a se dedicar a olhar o céu estrelado para se consolar das feiuras terrestres. Não seria isso uma solução excessivamente cômoda? Se quiséssemos leva
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2025
Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.
[Entre luas]
Declarou-me uma amiga que passou a se dedicar a olhar o céu estrelado para se consolar das feiuras terrestres. Não seria isso uma solução excessivamente cômoda? Se quiséssemos levar essa declaração às últimas consequências, acabaríamos dizendo: “que a Terra continue de mal a pior, eu olho para o céu e reencontro meu equilíbrio interior”. Não estaria minha amiga instrumentalizando ilicitamente esse céu estrelado?
Não buscaria eu exortá-la- mais entusiasmo lembrando as magníficas aventuras cosmonáuticas da humanidade, essas lutas míticas pela supremacia terrestre sobre o firmamento. O que me interessa, ao contrário, é tudo o que é apropriação verdadeira do espaço e dos objetos celestes, ou seja, o conhecimento objetivo de uma relação entre nós e o universo extra-humano.
A Lua, desde a Antiguidade, significou para os homens esse desejo de um paraíso luminoso e sereno, e essa devoção lunar dos poetas se perpetuou pelos tempos. Mas a Lua dos poetas tem alguma coisa a ver com as imagens leitosas e esburacadas que os foguetes nos enviam? Talvez não, ainda; mas o fato de sermos obrigados a reconsiderar a Lua de maneira nova nos levará a reconsiderar de maneira nova inúmeras outras coisas Quem ama a Lua realmente não se contenta em contemplá-la como uma imagem convencional: quer entrar numa relação mais estreita com ela, quer ver mais na Lua, quer que a Lua lhe diga mais.
(Adaptado de: CALVINO, ltalo, Assunto encerrado = Discursos sobre literatura o sociedade. Tradução: Roberta Bami. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 217-218)
O titulo “Entre luas” justifica-se pelo fato de que, nesse texto, o autor
- se mostra um entusiasta das contemplações poéticas que sua amiga costuma estender ao satélite da Terra.
- fala da diversidade dos corpos celestes e do reconhecimento que só merecem os que de fato se aplicam em estudá-los.
- distingue as perspectivas de quem olha para o céu em busca de paz intima e de quem quer investigá-lo para conhecê-lo.
- demonstra a superioridade da imaginação contemplativa sobre o pragmatismo de quem se limita à ciência.
- analisa a polaridade que existe entre o culto místico dos astros e a busca obsessiva do autoconhecimento.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A alternativa C está correta porque o enunciado destaca a coexistência de duas atitudes frente ao céu: perspectivas distintas que o texto contrasta.
De um lado figura a amiga, que “passou a se dedicar a olhar o céu estrelado para se consolar das feiuras terrestres” — uma busca por paz íntima e equilíbrio emocional.
Do outro, o narrador reivindica o “conhecimento objetivo de uma relação entre nós e o universo extra-humano”, isto é, uma investigação que apropria cientificamente a Lua e o céu.
O título “Entre luas” alude precisamente a essa posição intermediária: estar entre a contemplação subjetiva e a investigação objetiva, examinando ambas as formas de relação com o céu.
Portanto, a alternativa resume com precisão o contraste temático estabelecido pelo autor.
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