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Questão FC337888

Declarou-me uma amiga que passou a se dedicar a olhar o céu estrelado para se consolar das feiuras terrestres. Não seria isso uma solução excessivamente cômoda? Se quiséssemos leva

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2025

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

 

[Entre luas]

 

Declarou-me uma amiga que passou a se dedicar a olhar o céu estrelado para se consolar das feiuras terrestres. Não seria isso uma solução excessivamente cômoda? Se quiséssemos levar essa declaração às últimas consequências, acabaríamos dizendo: “que a Terra continue de mal a pior, eu olho para o céu e reencontro meu equilíbrio interior”. Não estaria minha amiga instrumentalizando ilicitamente esse céu estrelado?

 

Não buscaria eu exortá-la- mais entusiasmo lembrando as magníficas aventuras cosmonáuticas da humanidade, essas lutas míticas pela supremacia terrestre sobre o firmamento. O que me interessa, ao contrário, é tudo o que é apropriação verdadeira do espaço e dos objetos celestes, ou seja, o conhecimento objetivo de uma relação entre nós e o universo extra-humano.

 

A Lua, desde a Antiguidade, significou para os homens esse desejo de um paraíso luminoso e sereno, e essa devoção lunar dos postas se perpetuou pelos tempos. Mas a Lua dos poetas tem alguma coisa a ver com as imagens leitosas e esburacadas que os foguetes nos enviam? Talvez não, ainda; mas o fato de sermos obrigados a reconsiderar a Lua de maneira nova nos levará a reconsiderar de maneira nova inúmeras outras coisas Quem ama a Lua realmente não se contenta em contemplá-la como uma imagem convencional: quer entrar numa relação mais estreita com ela, quer ver mais na Lua, quer que a Lua lhe diga mais.

 

(Adaptado de: CALVINO, ltalo, Assunto encerrado = Discursos sobre literatura o sociedade. Tradução: Roberta Bami. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 217-218)

 

Ao perguntar Não estaria minha amiga instrumentalizando ilicitamente esse céu estrelado?, o autor do texto está considerando

  1. uma desautorizada manipulação de uma realidade.
  2. a vantagem de um olhar desinteressado.
  3. a ilusão de quem se julga perito em astronomia.
  4. o fervor de quem busca uma visão mais objetiva.
  5. o desânimo de quem renuncia ao conhecimento.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Ao perguntar “Não estaria minha amiga instrumentalizando ilicitamente esse céu estrelado?”, o autor insinua que ela está usando o céu não como objeto de conhecimento, mas como meio para um fim pessoal: escapar dos problemas terrestres.


Essa ideia de instrumentalização ilícita equivale a uma manipulação da experiência — isto é, apropriar-se do céu para mascarar ou justificar a negligência diante da realidade concreta.


O trecho seguinte — “que a Terra continue de mal a pior, eu olho para o céu…” — confirma a leitura: o céu vira ferramenta de fuga, não ponte para um entendimento objetivo.


Portanto, a expressão do autor corresponde à noção de uma desautorizada manipulação da realidade, que é exatamente o sentido da alternativa correta.

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