Questão FC337889
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. Os deuses da cidade Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que imp
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2025
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.
Os deuses da cidade
Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituldas que continuam a estorvar o campo visual e a capacidade de compreensão.
Depois é preciso saber simplificar, reduzir ao essencial o enorme número de elementos que a cada segundo a cidade põe diante dos olhos de quem a observa, e ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário, como o diagrama de uma máquina, com o qual se possa compreender como ela funciona.
A comparação da cidade com uma máquina é, ao mesmo tempo, pertinente e desviante. Pertinente porque uma cidade vive na medida em que funciona, isso é, em que serve para se viver nela e para fazer viver. Desviante porque, diferentemente das máquinas, que são criadas com vistas a uma determinada função, as cidades são todas ou quase todas o resultado de adaptações sucessivas a funções diferentes, não previstas por sua fundação anterior (penso nas cidades italianas com sua história de séculos ou de milênios).
Mais do que com a maquina, e a comparação com o organismo vivo na evolução da espécie que pode nos dizer alguma coisa importante sobre a cidade: como, ao passar de uma era para outra, as espécies vivas adaptam seus órgãos para novas funções ou desaparecem, assim também as cidades. E não podemos esquecer que na história da evolução toda espécie carrega consigo características que parecem de outras eras, na medida em que já não correspondem a necessidades vitais, mas que talvez um dia, em condições ambientais transformadas, serão as que salvarão a espécie da extinção. Assim a força da continuidade de uma cidade pode consistir em características e elementos que hoje parecem prescindíveis, porque esquecidos ou contraditos por seu funcionamento atual.
Os antigos representavam o espírito de uma cidade com aquele tanto de vago e aquele tanto de preciso que essa operação implica, evocando os nomes dos deuses que presidiram sua fundação: nomes que equivalem a personificações de posturas vitais do comportamento humano e que tinham de garantir a vocação profunda da cidade. Uma cidade pode passar por catástrofes e anacronismos, ver estirpes diferentes sucedendo-se em suas casas, ver suas casas mudarem cada pedra, mas deve, no momento certo, sob formas diferentes, reencontrar os próprios deuses.
(Adaptado de Calvino, Ítalo. Assunto encerrado. Trad. Roberta Barni. São Paulo:
Companhia das Letras, 2006, p. 333-336, passim)
No paragrafo, o autor expande sua afirmação inicial de que Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos recomendando que, para de fato reconhecermos o que seja uma cidade, devemos
- valorizar o que aparece nela como um desenho irremediavelmente fragmentário.
- amparar nossa visão contemporânea naquela que a tradição histórica já cristalizou.
- expurgar da imagem da cidade as incorporações pregressas que impedem de reconhecê-la.
- corresponder à complexidade de suas formas e aos seus mistérios indevassáveis.
- considerar a hipótese de que ela é uma máquina tosca e de funcionamento precário.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A alternativa aceita — expurgar da imagem da cidade as incorporações pregressas que impedem de reconhecê-la — reproduz literalmente a orientação inicial do texto: "descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas".
Ou seja, expurgar significa retirar preconceitos e representações acumuladas que obstruem a observação e a compreensão direta da cidade.
Esse procedimento prepara o terreno para o passo seguinte apontado pelo autor: simplificar e reduzir ao essencial, de modo a ligar os fragmentos num desenho analítico e unitário que permita entender como a cidade funciona.
Portanto, a alternativa sintetiza corretamente a ideia de limpar o campo visual e cognitivo para ver a cidade em sua realidade e funcionamento.
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