Questão FC337894
Os mitos existem para esconder a realidade. Por isso mesmo, eles revelam a realidade íntima de uma sociedade ou de uma civilização. Como se poderia, no Brasil colonial ou imperial,
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2025
Considere o texto para responder a questão seguinte.
Os mitos existem para esconder a realidade. Por isso mesmo, eles revelam a realidade íntima de uma sociedade ou de uma civilização. Como se poderia, no Brasil colonial ou imperial, acreditar que a escravidão seria, aqui, por causa de nossa “índole cristã”, mais humana, suave e doce que em outros lugares? Ou, então, propagar-se, no ocaso do século XIX, no próprio país no qual o partido republicano preparava-se para trair simultaneamente a ideologia e a utopia republicanas, optando pelos interesses dos fazendeiros contra os escravos, que a ordem social nascente seria democrática? Por fim, como ficar indiferente ao drama humano intrínseco à Abolição, que largou a massa dos ex-escravos, dos libertos e dos ingênuos à própria sorte, como se eles fossem um simples bagaço do antigo sistema de produção?
Entretanto, a ideia da democracia racial não só se arraigou. Ela se tornou um mores, como dizem alguns sociólogos, algo intocável, a pedra de toque da “contribuição brasileira” ao progresso civilizatório da Humanidade.
Ora, a revolução social vinculada à desagregação da produção escravista e da ordem social correspondente não se fazia para toda a sociedade brasileira. Seus limites históricos eram fechados, embora seus dinamismos históricos fossem abertos e duráveis. Naqueles limites, não cabiam nem o escravo e o liberto, nem o “negro” ou o “branco pobre” como categorias sociais. Tratava-se de uma revolução das elites, pelas elites e para as elites; no plano racial, de uma revolução do BRANCO para o BRANCO, ainda que se tenha de entender essa noção em sentido etnológico e sociológico.
Colocando-se a ideia de democracia racial dentro desse vasto pano de fundo, ela expressa algo muito claro: um meio de evasão dos estratos dominantes de uma classe social de obrigações e responsabilidades intransferíveis e inarredáveis. Daí a necessidade do mito. A falsa consciência oculta a realidade e simplifica as coisas. Todo o complexo de privilégios, padrões de comportamento e “valores” de uma ordem social arcaica podia manter-se intacto, em proveito dos estratos dominantes da “raça branca”, embora em prejuízo fatal da Nação.
As elites e as classes privilegiadas não precisavam levar a revolução social à esfera das relações raciais, na qual a democracia germinaria espontaneamente... Cinismo? Não! A consciência social turva, obstinada e mesquinha dos egoísmos enraizados, que não se viam postos à prova (antes, se protegiam) contra as exigências cruéis de uma estratificação racial extremamente desigual.
(Adaptado de: FERNANDES, Florestan. "Um Mito Revelador", em Significado do Protesto Negro, São Paulo: Cortez/Editores Associados,
1989, p. 13-14)
Para a coerente leitura do texto, uma noção adequada de mito é a que o considera:
- representação arquetípica de fatos ou personagens históricos, amplificados pelo imaginário coletivo.
- narrativa atemporal e a-histórica que fornece orientação ética para ações humanas.
- narrativa fantástica com o objetivo de explicar a existência do que foge ao alcance da racionalidade.
- representação fictícia de um acontecimento, com vistas a justificar as condutas adotadas.
- enredo de caráter alegórico, com a pretensão de justificar costumes e tradições.
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Gabarito
D
Comentário do professor
“Mito”, na alternativa D, é entendido como representação fictícia criada para dar suporte a determinadas ações sociais e políticas.
No texto de Florestan Fernandes, esse mito não é inocente: ele oculta a realidade da exclusão racial e naturaliza desigualdades, tornando-as aceitáveis.
Sua função central é justificar escolhas e comportamentos das camadas dominantes — isto é, legitimar a manutenção de privilégios sem exposição de responsabilidades.
Trata‑se, portanto, de um recurso instrumental e deliberado: a ficção serve para poupar as elites do confronto com as exigências sociais e históricas.
Assim, a definição da alternativa D espelha com precisão a crítica do autor ao papel ideológico do mito.
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