Questão FC337896
Os mitos existem para esconder a realidade. Por isso mesmo, eles revelam a realidade íntima de uma sociedade ou de uma civilização. Como se poderia, no Brasil colonial ou imperial,
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2025
Considere o texto para responder a questão seguinte.
Os mitos existem para esconder a realidade. Por isso mesmo, eles revelam a realidade íntima de uma sociedade ou de uma civilização. Como se poderia, no Brasil colonial ou imperial, acreditar que a escravidão seria, aqui, por causa de nossa “índole cristã”, mais humana, suave e doce que em outros lugares? Ou, então, propagar-se, no ocaso do século XIX, no próprio país no qual o partido republicano preparava-se para trair simultaneamente a ideologia e a utopia republicanas, optando pelos interesses dos fazendeiros contra os escravos, que a ordem social nascente seria democrática? Por fim, como ficar indiferente ao drama humano intrínseco à Abolição, que largou a massa dos ex-escravos, dos libertos e dos ingênuos à própria sorte, como se eles fossem um simples bagaço do antigo sistema de produção?
Entretanto, a ideia da democracia racial não só se arraigou. Ela se tornou um mores, como dizem alguns sociólogos, algo intocável, a pedra de toque da “contribuição brasileira” ao progresso civilizatório da Humanidade.
Ora, a revolução social vinculada à desagregação da produção escravista e da ordem social correspondente não se fazia para toda a sociedade brasileira. Seus limites históricos eram fechados, embora seus dinamismos históricos fossem abertos e duráveis. Naqueles limites, não cabiam nem o escravo e o liberto, nem o “negro” ou o “branco pobre” como categorias sociais. Tratava-se de uma revolução das elites, pelas elites e para as elites; no plano racial, de uma revolução do BRANCO para o BRANCO, ainda que se tenha de entender essa noção em sentido etnológico e sociológico.
Colocando-se a ideia de democracia racial dentro desse vasto pano de fundo, ela expressa algo muito claro: um meio de evasão dos estratos dominantes de uma classe social de obrigações e responsabilidades intransferíveis e inarredáveis. Daí a necessidade do mito. A falsa consciência oculta a realidade e simplifica as coisas. Todo o complexo de privilégios, padrões de comportamento e “valores” de uma ordem social arcaica podia manter-se intacto, em proveito dos estratos dominantes da “raça branca”, embora em prejuízo fatal da Nação.
As elites e as classes privilegiadas não precisavam levar a revolução social à esfera das relações raciais, na qual a democracia germinaria espontaneamente... Cinismo? Não! A consciência social turva, obstinada e mesquinha dos egoísmos enraizados, que não se viam postos à prova (antes, se protegiam) contra as exigências cruéis de uma estratificação racial extremamente desigual.
(Adaptado de: FERNANDES, Florestan. "Um Mito Revelador", em Significado do Protesto Negro, São Paulo: Cortez/Editores Associados,
1989, p. 13-14)
A frase ''As elites e as classes privilegiadas não precisam levar a revolução social à esfera das relações raciais, na qual a democracia germinaria espontaneamente...'', em consonância com texto,
- fornece uma explicação para os desdobramentos sociais da abolição, pautada pela crença na utopia social e pelos ideais democráticos do partido republicano.
- expressa um desdobramento natural do mito, segundo seus próprios idealizadores, diversamente da opinião do autor do texto, o que se evidencia com o tempo verbal de “germinaria”.
- refere, em caráter hipotético, com o verbo “germinaria” no futuro do pretérito, as expectativas em relação à abolição da escravatura, que por si só desencadearia o processo democrático.
- reflete como um traço da cultura brasileira daria origem, independentemente da movimentação das elites, à democracia racial.
- mostra como a estratificação social tenderia a diminuir naturalmente, a despeito de políticas de reparação histórica, por um mecanismo de autorregulação característico de nossa realidade.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A alternativa B está correta porque reconhece que a frase reproduz a visão conveniente das elites, não a tese do autor. Ao dizer que “a democracia germinaria espontaneamente”, o enunciado reporta uma crença usada para justificar a inação.
O verbo germinaria (futuro do pretérito) tem valor hipotético e indica uma expectativa dependente de condição não cumprida — isto é, um desenvolvimento imaginado pelas elites, ilusório e nunca efetivado.
Florestan Fernandes utiliza ironia ao registrar essa esperança: o trecho denuncia o mito da democracia racial como artifício de evasão de responsabilidades, mostrando que a “germinação” era uma projeção conveniente, não um fato.
Portanto, a alternativa capta corretamente o sentido crítico do trecho: trata‑se de um desdobramento pensado pelos idealizadores do mito, evidenciado pelo tempo verbal escolhido.
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