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Questão FC337916

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte. As duas memórias O filósofo francês Henri Bergson distinguiu dois tipos de memória, dos quais nos servimos ao longo da vida:

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2025

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

 

As duas memórias

 

O filósofo francês Henri Bergson distinguiu dois tipos de memória, dos quais nos servimos ao longo da vida: a memória-hábito e a memória-pura. Na memória-hábito, o corpo guarda esquemas de comportamento de que se vale muitas vezes automaticamente na sua ação sobre as coisas; na memória-pura, ocorrem lembranças independentes de quaisquer hábitos, lembranças isoladas, que constituiriam autênticas ressurreições do passado.

 

A análise do cotidiano mostra que a relação entre essas duas formas de memória é, não raro, conflitiva. Na medida em que a vida psicológica entra na bitola dos hábitos, e move-se para a ação, restaria pouca margem para o devaneio onde flui a evocação espontânea das imagens e das lembranças avulsas. O contrário também é verdadeiro: o sonhador resiste ao enquadramento nos hábitos, que é peculiar ao homem de ação.

 

A memória-hábito adquire-se pelo esforço da atenção e pela repetição de gestos e palavras. Ela é um processo que se dá pelas exigências da socialização. Graças à memória-hábito, sabemos ''de cor'' os movimentos que exigem, por exemplo, o comer segundo as regras da etiqueta, o falar uma língua estrangeira, o dirigir um automóvel, o costurar, o datilografar etc.

 

No outro extremo, a lembrança pura, quando se atualiza na imagem-lembrança, traz à tona a consciência de um momento único, singular, não repetido, irreversível, da vida. Sonho e poesia são, tantas vezes, feitos dessa matéria que estaria latente nas zonas profundas do psiquismo, a que Bergson não hesitará em dar o nome de ''inconsciente''.

 

A imagem-lembrança tem data certa: refere-se a uma situação definida, individualizada, ao passo que a memória-hábito já se incorporou às práticas do dia a dia. A memória-hábito parece fazer um só todo com a percepção do presente. "Memória-sonho'' e ''memória-trabalho'' também seriam denominações justas, para bem distingui-las.

 

(Adaptado de: BOSI, Ecléa. Memória e sociedade - Lembranças de velhos. São Paulo: T. A, Queiroz, 1979, p. 11)

 

A relação de conflito que se estabelece entre duas memórias deve-se ao fato de que

  1. há uma tendência, nos usos que se fazem dela, a privilegiar o valor de uma em detrimento da outra.
  2. cada uma delas é exercida de modo a suprimir os hábitos cotidianos que servem ao apoio da outra.
  3. suas naturezas implicam operações que divergem muito quanto à função que exercem em nossa vida.
  4. a utilidade que ambas demonstram nas práticas cotidianas não costuma ser reconhecida por quem delas se vale.
  5. a espontaneidade própria da ação de cada uma faz com que às vezes acabem superpondo suas funções.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Memória-hábito e memória-pura diferem em sua essência: a primeira é fruto da repetição e da socialização, voltada para a ação automática no presente; a segunda é a lembrança singular, irrepetível, que evoca imagens do passado.

O conflito mencionado no texto surge porque essas naturezas implicam operações distintas — uma organiza comportamentos e rotinas, a outra abre espaço para devaneio e recordação espontânea — e, assim, disputam lugares diferentes na vida psíquica.

Exemplos simples: enquanto a memória-hábito permite dirigir sem pensar em cada gesto, a memória-pura traz à consciência uma cena única que interrompe essa fluidez. É essa divergência funcional que explica a tensão entre ambas.

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