Questão FC337933
Respostas a tais perguntas não são fáceis de encontrar, e sobretudo não cabe antecipa-las se ainda estamos tão imersos no presente. Mas o grande ensaísta alemão Walter Benjamin, nu
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2024
Texto
Haverá uma história da pandemia?
Haverá uma história para contar quando tudo isso acabar? Haverá razão para ouvir essa história e paciência para acompanhar as minúcias de tantas vidas interrompidas? Será narrável a magnitude dessa experiência, tão absoluta e insistente, que de um momento para outro se apoderou do mundo inteiro e não nós poupara tão cedo? Ou preferimos não narrar nada, nos render ao desejo de seguir em frente, de deixar tudo para trás, de esquecer, recalcar, ocultando de nós mesmos uma vivência desoladora e agônica, sem redenção possível?
Respostas a tais perguntas não são fáceis de encontrar, e sobretudo não cabe antecipa-las se ainda estamos tão imersos no presente. Mas o grande ensaísta alemão Walter Benjamin, num de seus textos mais conhecidos, “O narrador", talvez nos ajude a ventilar ideias e alinhavar suspeitas. É ele quem fala de uma crise de experiência que marcaria o nosso tempo. É ele quem afirma, ainda em 1936, que “as ações da experiência estão em baixa, e tudo indica que continuarão caindo até que seu valor desapareça de todo”. Estaremos cumprindo, nestes anos atípicos, o surpreendente vaticínio de Benjamin? Vivemos agora a culminação da crise, uma carência de palavras que de fato deem conta da experiência ora vivida, que de fato possam nos expressar?
Em breve frase, Benjamin contempla seu maior exemplo para o fim da transmissão das experiências humanas: a situação dos soldados que voltavam mudos da Primeira Guerra Mundial, desprovidos de histórias, “não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável”. Os muito livros posteriores em nada redimiriam tal silêncio. O caso é que a nova estratégia de guerra alienava os combatentes, confinados em trincheiras, isolados uns dos outros, sem a possibilidade de acompanhar de perto a vastidão dos acontecimentos. Dali, nada veem, tudo ouvem e estremecem. São parte inerte de uma “paisagem em que nada permanecera inalterado, exceto as nuvens, e debaixo delas, num campo de forças de torrentes e explosões, o frágil e minúsculo corpo humano”, nas palavras de Benjamin.
(Adaptado de: FUKS, Julián. Lembramos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 61-62)
No 2º parágrafo, considera-se que a dificuldade de se encontrar uma resposta à pergunta que da titulo ao texto deve-se ao fato de que
- as grandes experiências humanas costumam variar de tal modo que se torna difícil tanto prevê-las quanto narrá-las.
- desde 1936 a história da humanidade tem propiciado vivências que extrapolam todos os esforços das descrições literárias.
- as causas mesmas que estão na origem das pandemias ainda constituem uma incógnita inapreensível para a ciência.
- as palavras, como criações humanas, são por si mesmas incapazes de atingir a raiz das experiências definitivas.
- a imersão numa forte experiência do presente não permite que se faça desta uma interpretação imediatamente objetiva.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Imersão numa experiência intensa — como a pandemia — torna difícil a sua narração imediata porque quem vive o evento está ainda dentro dele e sem distância crítica para interpretá‑lo.
O texto invoca Walter Benjamin e sua ideia de crise de experiência: vivências extremas empobrecem a “experiência comunicável”, produzindo uma carência de palavras capaz de expressar o vivido.
Assim, a dificuldade apontada no segundo parágrafo não decorre da falta de fatos, mas do fato de estarmos temporalmente e afetivamente envolvidos — abalados, muitas vezes isolados — o que impede uma leitura imediatamente objetiva e articulada dos acontecimentos.
Portanto, enquanto persistir a imersão no presente, a construção de uma história clara e compartilhável ficará comprometida.
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