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Questão FC337968

Leia o poema a seguir para responder à questão. Vozes-Mulheres A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio. Ecoou lamentos de uma infância perdida. A voz de minha avó e

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2024

Leia o poema a seguir para responder à questão.

Vozes-Mulheres

 

A voz de minha bisavó

ecoou criança

nos porões do navio.

Ecoou lamentos

de uma infância perdida.

 

A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

 

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela.

 

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e

fome.

 

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem - o hoje - o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

o eco da vida-liberdade.

(EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Malê, 2017.)

 

Sobre o poema, é correto afirmar que:

  1. ele é todo constituído por verbos no passado, usados para mostrar que o eu-lírico hoje se difere totalmente dos seus antepassados.
  2. o eu-lírico feminino reflete sobre a sua própria história: a consciência de sua identidade seria fruto de uma construção cultural.
  3. a terceira estrofe apresenta uma mulher completamente silenciada, incapaz de perceber as violências que sofre.
  4. a mulher retratada na última estrofe, assim como todas as outras mulheres do poema, é incapaz de reagir à opressão.
  5. ele destaca a superioridade das mulheres contemporâneas, que deixaram para trás a história de seus antepassados.
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Gabarito

B

Comentário do professor

O poema apresenta o eu‑lírico feminino em diálogo com suas antepassadas: bisavó, avó, mãe e filha, formando uma cadeia de experiências que atravessam tempo e violência.

Ao reunir essas vozes, o poema mostra que a consciência de identidade não nasce isolada, mas é resultado de uma construção cultural — memórias, imposições sociais e resistências transmitidas de geração a geração.

Imagens como o porão do navio, as cozinhas alheias e a favela apontam para contextos históricos e sociais que moldam essa identidade; a filha, que “recolhe todas as nossas vozes”, simboliza a continuidade e a ressonância coletiva.

Assim, o eu‑lírico não apenas relata fatos pessoais, mas reflete sobre como sua identidade se forma a partir de uma herança cultural compartilhada.

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