Questão FC337972
Leia o texto abaixo para responder à questão. Estatuto do Amor Não esperes aquele ano em que, por obra de tua violência, a tua família seja dizimada, para só então descobrires a gr
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2024
Leia o texto abaixo para responder à questão.
Estatuto do Amor
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Não esperes aquele ano em que, por obra de tua violência, a tua família seja dizimada, para só então descobrires a gravidade indizível de tua infância. Para saberes que gozo terias sentido se, em vez de matá-la, a tivesses levado ao pélo enquanto vivia.
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Mergulha, sim, na liturgia do amor e renuncia à tua descabida ira. O amor é e será sempre teu melhor gesto na terra. O único capaz de projetar luz sobre esta precária existência humana.
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Não permitas que, sob o jugo de tua ira, mulher e filhos fiquem ao desabrigo da sorte, ingrata e imprevidente.
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Defende o teu lar de ti mesmo. Da tua ferocidade, da tua paixão desenfreada, da ânsia de golpear, de mutilar, de maltratar, como se te coubesse este desapiedado e falso exercício da Justiça.
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Mas se, no futuro, o amor à mulher se esgote, não é razão para deixar em seu lugar os traços do desamor, o estigma da maldade. Nenhum pedaço de carne humana merece ser golpeado pela indiferença, pela violência, pela injustiça. Portanto, não abatas a tiro, a tapas, a arranhões, o corpo da mulher.
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Não lhe negues, então, o olhar compassivo, as lágrimas conspurcadas por uma realidade que traiu teus sonhos. Quem quer que esteja no recinto sagrado do lar é, ao mesmo tempo, o sucessor do teu horror e da tua capacidade de maravilhar-se.
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Aprenda que o outro é o teu lar. É o teu corpo, o teu nome, o teu outro rosto. É o verso e o reverso de tuas entranhas. É o espelho de tua inalienável humanidade.
(Adaptado de: PICON, Nélida. Uma furtiva lágrima. Rio de Janeiro: Record, 2019. pp. 15-19)
Não lhe negues, então, o olhar compassivo, as lágrimas conspurcadas por uma realidade que traiu teus sonhos. Quem quer que esteja no recinto sagrado do lar é, ao mesmo tempo, o sucessor do teu horror e da tua capacidade de maravilhar-se.
No trecho:
- uma mulher "ideal" é projetada como receptora da mensagem ética ali exposta.
- a autora define o "estatuto do amor" como um elemento provocador tanto de horror quanto de maravilhamento.
- a autora afirma que somente aqueles que compreendem a realidade seriam dignos de compaixão.
- a autora opõe-se à banalização da violência doméstica e afirma que, mesmo com o fim do amor, as mulheres seriam dignas de compaixão.
- a autora argumenta que as lágrimas não deveriam ser conspurcadas por sonhos irrealizáveis.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa aponta corretamente que a autora se coloca contra a banalização da violência doméstica e defende a manutenção da compaixão mesmo quando o vínculo amoroso se esgota.
No texto, a sequência de enunciados proíbe a agressão e aconselha o homem a renunciar à ira; em seguida, pede-se que não se negue à mulher o “olhar compassivo” e as “lágrimas conspurcadas”. Isso indica que a resposta adequada à perda do amor não é a violência nem a indiferença.
Ao afirmar que quem vive no lar é simultaneamente “sucessor do teu horror e da tua capacidade de maravilhar‑se”, a autora reconhece a complexidade humana e reafirma a dignidade da mulher, exigindo respeito e cuidado, não punição.
Assim, a inferência da alternativa D decorre diretamente das orientações e do tom ético do texto.
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