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Questão FC337974

O Imposto, a conta, o bazar barato / O relógio aponta o momento exalo / Da morte Incerta, a gravata enforca / O sapato aperta, o país exporta / E na minha porta ninguém quer ver/ U

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2024

Leia o texto abaixo para responder à questão.

A idolatria do PIB. - O PIB é invenção recente. A ideia de medir a variação do valor monetário dos bens e serviços produzidos a cada ano surgiu no período entreguerras, mas foi só em meados do século passado que os órgãos oficiais passaram a calcular e publicar dados de PIB para os diferentes países. Nenhum dos grandes economistas clássicos - Smith, Ricardo, Malthus, Marx ou Mill - jamais foi instado a prever o PIB do ano ou trimestre seguintes. O culto do PIB como métrica de sucesso das nações tornou-se uma espécie de religião do nosso tempo. O crescimento é a meta suprema em nome da qual governos são eleitos ou rejeitados nas urnas, e um antropólogo marciano poderia supor que o acrônimo PIB nomeia a nossa divindade-mor na vida pública, enquanto o afã de consumo preenche o vazio da existência na esfera privada. - Mas o que exatamente está sendo medido? Imagine uma comunidade na qual a água potável é um bem livre e desfrutado por todos com a mesma facilidade com que obtemos o ar que respiramos; suponha, no entanto, que as fontes de água foram poluídas e agora se tornou necessário purificá-la, engarrafá-la e distribuí-la, de modo que todos precisam trabalhar um pouco mais a fim de comprá-la no mercado - o que acontece com o PIB dessa comunidade? O erro não é de magnitude, mas de sinal: as pessoas empobreceram, ao passo que o PIB total e o PIB per capita subiram. Daí que: se eu moro perto do meu local de trabalho e posso caminhar até ele, o PIB nada registra; mas, se preciso tomar uma condução e pagar o bilhete (sem falar no tempo encarcerado no trânsito), ele sobe. Se eu gosto do que faço, embora ganhando menos do que poderia, e passo a trabalhar sem a menor alegria para um mundo caduco, mas recebendo um aumento por isso, o PIB sobe. O PIB, em suma, mede o valor monetário dos bens e serviços que transitam pelo sistema de preços - e nada mais. E, quando se tornar inevitável portar garrafinhas de oxigênio na cintura a fim de seguir respirando, o PIB subirá de novo.

(GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos: uma perspectiva brasileira da crise civilizatória. São Paulo: Companhia das Letras. 2016. pp. 51-52)

 

Leia, atentamente, o trecho da canção Pois é, pra quê? (Sidney Miller):

O Imposto, a conta, o bazar barato / O relógio aponta o momento exalo / Da morte Incerta, a gravata enforca / O sapato aperta, o país exporta / E na minha porta ninguém quer ver/ Uma sombra morta, pois é, pra quê?

O trecho de "A idolatria do PIB" que confirma a crítica expressa na canção "Pois é, pra quê?" é:

  1. Nenhum dos grandes economistas clássicos - Smith, Ricardo, Malthus, Marx ou Mill - jamais foi instado a prever o PIB do ano ou trimestre seguintes. O culto do PIB como métrica de sucesso das nações tomou .. se uma espécie de religião do nosso tempo.
  2. Se eu gosto do que faço, embora ganhando menos do que poderia, e passo a trabalhar sem a menor alegria para um mundo caduco, mas recebendo um aumento por isso, o PIB sobe. O PIB, em suma, mede o valor monetário dos bens e serviços que transitam pelo sistema de preços e nada mais.
  3. E, quando se tornar inevitável portar garrafinhas de oxigênio na cintura a fim de seguir respirando, o PIB subirá de novo.
  4. O crescimento é a meta suprema em nome da qual governos são eleitos ou rejeitados nas umas, e um antropólogo marciano poderia supor que o acrônimo PIB nomeia a nossa divindade-mor na vida pública.
  5. O erro não é de magnitude, mas de sinal: as pessoas empobreceram, ao passo que o PIB total e o PIB per capita subiram.
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Gabarito

B

Comentário do professor

O trecho selecionado mostra, de forma clara, a crítica central da canção: o crescimento econômico medido pelo PIB não equivale a melhoria da vida das pessoas.

Ao dizer "Se eu gosto do que faço, embora ganhando menos... passo a trabalhar sem a menor alegria... recebendo um aumento por isso, o PIB sobe", o autor expõe a contradição entre o aumento salarial/produção e a perda de sentido pessoal.

Em seguida, ao afirmar que o PIB "mede o valor monetário dos bens e serviços" e nada mais, fica explícito que esse indicador ignora qualidade de vida, bem-estar e sofrimento cotidiano — exatamente o lamento do verso "o sapato aperta... uma sombra morta".

Assim, o excerto sintetiza a denúncia: crescimento econômico pode crescer enquanto as pessoas empobrecem em bem-estar.

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