Questão FC338001
Essa crônica é uma despedida. Resolvi, por decisão própria, parar de escrever em Cotidiano [caderno do jornal FSP]. Devo ter perdido o juízo. Minha decisão contrária um dos dois ma
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2024
Essa crônica é uma despedida. Resolvi, por decisão própria, parar de escrever em Cotidiano [caderno do jornal FSP].
Devo ter perdido o juízo. Minha decisão contrária um dos dois maiores sonhos de cada escritor. Primeiro, o sonho de ser um best-seller. Confesso: sou vítima dessa vaidade. O outro sonho dos escritores é ter seus textos publicados num jornal importante. O que significa reconhecimento duplo: do jornal que os publica e dos leitores. Todo escritor tem uma pitada de narcisismo.
Fernando Pessoa tem um poema que diz assim: "tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas..." e Ele se pergunta se " não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas..." Respondo: sim. Há um cansaço. A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. Mas, agora , meus 78 anos estão pesando. E, como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar. A obrigação : é isso o que pesa. Perco o sono atormentado por deveres, pensando no que tenho de escrever. Sinto - pode ser que não seja assim, mas é assim que eu sinto - que já disse tudo. Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.
O tempo dos jornais é o hoje, as presenças. Mas minha alma é movida pelas ausências: nos jornais, não há lugar para ressureições.
(Adaptado de: ALVES, Rubem. "Despedida". Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 01/02/2024)
Depreende-se que o autor do texto pretende deixar de escrever uma coluna de jornal porque.
- a maturidade intelectual o fez superar o narcisismo que o motivava a escrever para um jornal importante.
- os novos formatos de divulgação de notícias causaram desinteresse pelas crônicas diárias.
- a competitividade típica dos dias atuais bloqueou seu potencial criativo.
- a obrigação inerente a esse oficio tornou-se para ele um fardo pesado.
- o desejo que tem de dedicar-se à literatura erudita é tolhido pelo tempo gasto na escrita da coluna.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Porque a obrigação de produzir crônicas tornou-se um fardo para o autor. No texto ele afirma explicitamente: "a obrigação: é isso o que pesa" e que "perco o sono atormentado por deveres", evidenciando que o compromisso de escrever passa a ser sofrimento.
O autor associa esse peso ao cansaço e à idade ("meus 78 anos estão pesando") e à sensação de já não ter novidades para dizer ("sinto... que já disse tudo"), o que transforma o dever em exigência vazia.
Além disso, há um conflito entre o tempo do jornal — o presente imediato — e a inclinação íntima do autor para as ausências e recordações, que "nos jornais, não há lugar para ressureições". Assim, a obrigação inerente ao ofício torna-se insustentável, justificando sua decisão de parar.
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