Questão FC338006
No — Isso quer dizer que como você não pode quantificar a sensação de encontrar uma face bela, essa sensação é irrelevante?
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2024
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.
Um diálogo instrutivo
Muitos entusiastas da Inteligência Artificial (IA) continuam a insistir na venda da utopia de que as máquinas digitais não só serão capazes de simular a inteligência humana como, eventualmente, poderão superar a todos nós no nosso próprio jogo, o jogo de pensar, se comportar e viver como seres humanos. Costumo, nas minhas aulas, utilizar um diálogo hipotético entre um neurocientista (N) é um pesquisador da área de inteligência artificial (PIA) para ilustrar o abismo que separa aqueles que, como eu, acreditam ser bem-vindo o uso da tecnologia para promover a melhoria da qualidade de vida das pessoas e aqueles que lrabalham apenas com o objetivo de concretizar uma distopia. Eis aqui um momento desse diálogo:
N — Como você programaria o conceito de beleza em uma máquina da IA?
PIA — Defina um conceito de beleza para mim e eu posso programá-lo.
N - Esse é o problema central. Eu não posso definir beleza — você também não pode, tampouco outro ser humano que jamais viveu e experimentou a sensação de deparar-se com a beleza.
PIA — Se você não pode defini-la de forma precisa, não posso programá-la, ela simplesmente não interessa. Ela não existe. E, como cientista computacional, não me importo com ela.
N — A sua mãe ou sua filha são bonitas?
PIA — Sim, elas são.
No — E você pode definir por quê?
PlA — Não, eu não posso. Não posso programar a minha experiência subjetiva e pessoal no meu computador. Portanto, ela não existe nem significa nada do ponto de vista científico.
No — Isso quer dizer que como você não pode quantificar a sensação de encontrar uma face bela, essa sensação é irrelevante?
PIA — Basicamente, sim! Você entendeu o meu ponto de vista.
Assustador como esse diálogo pode soar, quando milhões de pessoas vivendo nestes tempos modemos já decidiram que qualquer coisa que uma máquina não possa fazer é irrelevante para a humanidade.
(Adaptado de NICOLELIS, Miguel. O verdadeiro criador de tudo. São Paulo: Planeta, 2020, p. 1563-164)
No diálogo travado entre um neurocientista (N) e um pesquisador da área de Inteligência Artificial (PIA), o conceito de beleza é
- insustentável para ambos, uma vez que reconhecem não haver como definir beleza natural ou beleza artificial.
- intrigante para ambos, embora o pesquisador aceite o mistério do que é belo com maior naturalidade do que o neurocienlista.
- irrelevante para ambos, uma vez que a experiência estética é aceita como uma vivência menor no âmbito da ciência humana.
- indefinível para ambos, mas divergem frontalmente quanto à importância e à relevância da experiência do que é belo.
- inequívoco para ambos, mantendo-se o neurologista mais cauteloso em sua definição do que o pesquisador.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa aponta corretamente que o conceito de beleza é apresentado no diálogo como indefinível: ambos reconhecem a impossibilidade de uma definição precisa — “não posso definir beleza” — o que impede sua formalização em código.
Contudo há uma divergência essencial quanto à sua importância. O neurocientista valoriza a dimensão subjetiva e vivida da experiência estética, ao mencionar quem "viveu e experimentou a sensação de deparar‑se com a beleza".
O pesquisador de IA, por sua vez, considera essa vivência irrelevante cientificamente — se não pode ser quantificada, “não existe” para os propósitos de programação — negando, assim, sua relevância.
Portanto, a alternativa resume com fidelidade: indefinível para ambos, mas há um conflito frontal sobre a importância da experiência do belo.
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