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Questão FC338037

- E vais outoneando sozinha?

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2024

Atenção: Para responder à questão, baseie- se no texto abaixo.

"Fala, amendoeira"

 

Este oficio de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza. Abrindo a janela, o cronista pousou a vista nas árvores, que estavam todas verdes, menos uma. Essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, numa gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois da qual as folhas caem. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira! - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

 

- Não vês? Começo a outonear. É 21 de março, data que as folhinhas assinalam o equinócio de outono. Cumpro meu dever de árvore.

 

- E vais outoneando sozinha?

 

- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação da primavera, e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga, uma suspeita de inverno.

 

- Somos todos assim.

 

- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: silo frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se diluí em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

 

- Não me entristeça.

 

- Não, querido, sou tua árvore da guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.

 

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Orummond. Fala, amendoeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.. p. 13-14)

 

Ao dirigir.se ao cronista dizendo que nele "o outono é manifesto e exclusivo", a natureza se apoia na convicção de que esse escritor

  1. se constitui como uma combinação entre elementos de diferentes estações.
  2. está num momento da vida em que se transita com serenidade de um estado a outro.
  3. se distingue dos homens comuns por conta da intensidade máxima de suas paixões.
  4. desfruta ainda de uma oferta imaturidade que lhe traz vantagens excepcionais.
  5. guarda um complexo de emoções que o impedem de ser uma pessoa natural.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A expressão da árvore — que o cronista é alguém cujo outono é “manifesto e exclusivo” — aponta para uma condição interna: não se trata de variações climáticas, mas de uma fase da vida particular e íntima.

No texto, esse sentido fica explícito pelo vocabulário usado: o narrador chama essa etapa de outonada, diz que o outono é “mais estação da alma que da natureza” e aconselha a “outonizar com paciência e doçura”, valorizando dignidade, ritmos e aceitação. Esses elementos caracterizam uma passagem serena, reflexiva e gradual.

Logo, a leitura correta é que o cronista vive um momento de transição interior, marcado por serenidade ao mover‑se de um estado vital a outro — exatamente o enunciado da alternativa correta.

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