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Questão FC338042

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. [Cidades devastadas] Em vinte anos eliminaram a minha cidade e edificaram uma cidade estranha. Para quem continuou mor

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2023

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

 

[Cidades devastadas]

 

Em vinte anos eliminaram a minha cidade e edificaram uma cidade estranha. Para quem continuou morando lá, a amputação pode ter sido lenta, quase indolor; para mim, foi uma cirurgia de urgência, sem a inconsciência do anestésico.

 

Enterraram a minha cidade e muito de mim com ela. Por cima de nós construíram casas modernas, arranha-céus, agências bancárias; pintaram tudo, deceparam árvores, demoliram, mudaram fachadas. Como se tivessem o propósito de desorientar-me, de destruir tudo o que me estendia uma ponte entre o que sou e o que fui. Enterraram-me vivo na cidade morta.

 

Mas, feliz ou infelizmente, ainda não conseguiram soterrar de todo a minha cidade. Vou andando pela paisagem nova, desconhecida, pela paisagem que não me quer e eu não entendo, quando de repente, entre dois prédios hostis, esquecida por enquanto dos zangões imobiliários, surge, intacta e doce, a casa de Maria. Dói também a casa de Maria, mas é uma dor que conheço, íntima e amiga.

 

Não digo nada a ninguém, disfarço o espanto dessa descoberta para não chamar o empreiteiro das demolições. Ah, se eles, os empreiteiros, soubessem que aqui e ali repontam restos emocionantes da minha cidade em ruínas! Se eles soubessem que aqui e ali vou encontrando passadiços que me permitem cruzar o abismo!

 

(Adaptado de CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Antologia. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 209-210)

 

Nos dois parágrafos finais do texto, o cronista ressalta que,

  1. por conta da destruição de sua cidade, ele passou a imaginar inéditas emoções.
  2. em meio a tudo o que foi destruído, encontrou sinais de resiliência diante da devastação.
  3. para atender a seus interesses, os empreiteiros preservam aqui e ali vestígios do passado.
  4. graças a um antigo amor, recuperou uma visão abrangente de sua cidade perdida.
  5. diante de prédios novos, um antigo amor brotou por força da memória imaginativa.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Nos dois parágrafos finais o cronista revela que, apesar da devastação, ainda encontra vestígios que lhe permitem resistir emocionalmente à perda.

Ao surgir, entre prédios, a “casa de Maria” — descrita como “intacta e doce” — o narrador reconhece um ponto de continuidade com o passado: uma presença material que não foi completamente apagada.

Ao dizer que “aqui e ali repontam restos emocionantes da minha cidade em ruínas”, ele destaca não só objetos, mas caminhos afetivos — os passadiços que lhe possibilitam “cruzar o abismo”.

Esses elementos caracterizam a ideia de resiliência: capacidade de manter laços, recuperar sentidos e resistir à aniquilação total da memória e da identidade.

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