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Questão FC338056

Atenção: Leia o texto “Ardil da desrazão”, de Eduardo Giannetti, para responder à questão. Imagine uma pessoa afivelada a uma cama com eletrodos colados em suas têmporas. Ao se gir

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2023

Atenção: Leia o texto “Ardil da desrazão”, de Eduardo Giannetti, para responder à questão.

 

Imagine uma pessoa afivelada a uma cama com eletrodos colados em suas têmporas. Ao se girar um botão situado em local distante, a corrente elétrica nos eletrodos aumenta em grau infinitesimal, de modo que o paciente não chegue a sentir. Um hambúrguer gratuito é então ofertado a quem girar o botão. Ocorre, porém, que, quando milhares de pessoas fazem isso − sem que cada uma saiba das ações das demais −, a descarga elétrica gerada é suficiente para eletrocutar a vítima. Quem é responsável pelo quê? Algo tenebroso foi feito, mas de quem é a culpa? O efeito isolado de cada giro do botão é, por definição, imperceptível − são todos “torturadores inofensivos”. Mas o efeito conjunto é ofensivo ao extremo. Até que ponto a somatória de ínfimas partículas de culpa se acumula numa gigantesca dívida moral coletiva? − O experimento mental concebido pelo filósofo britânico Derek Parfit dá o que pensar. A mudança climática em curso equivale a uma espécie de eletrocussão da biosfera. Quem a deseja? A quem interessa? O ardil da desrazão vira do avesso a “mão invisível” da economia clássica. O aquecimento global é fruto da alquimia perversa de incontáveis ações humanas, mas não resulta de nenhuma intenção humana. E quem assume − ou deveria assumir − a culpa por ele? Os 7 bilhões de habitantes da Terra pertencem a três grupos: o primeiro bilhão, no cobiçado topo da escala de consumo, responde por 50% das emissões de gases-estufa; os 3 bilhões seguintes por 45%; e os 3 bilhões na base da pirâmide (metade sem acesso a eletricidade) por 5%. Por seu modo de vida, situação geográfica e vulnerabilidade material, este último grupo − o único inocente − é o mais tragicamente afetado pelo “giro de botão” dos demais.

(GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016)

 

Em sua argumentação, Eduardo Giannetti compara a “pessoa afivelada a uma cama com eletrodos colados em suas têmporas”

  1. ao aquecimento global.
  2. à mudança climática.
  3. à economia.
  4. à biosfera.
  5. às ações humanas.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A metáfora da pessoa afivelada à cama descreve um sujeito que sofre efeitos indetectáveis até que a soma desses efeitos torne-se letal. Eduardo Giannetti transcreve esse experimento para o plano ambiental: a vítima simbólica é a biosfera.

Cada “giro de botão” equivale a uma ação humana isolada — emissões, consumo, degradação — cujo impacto individual é quase imperceptível. Mas, acumuladas, essas ações produzem a eletrocussão do sistema natural, isto é, mudanças climáticas e destruição ambiental de grande escala.

A analogia ressalta duas ideias-chave: a interdependência dos atos humanos e a dissociação entre intenção individual e dano coletivo. Assim, comparar a pessoa à biosfera deixa claro quem recebe o choque final: não os autores imediatos, mas o próprio planeta.

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