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Questão FC338058

− E… se não conquistarmos?

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2023

Para responder a questão, leia a crônica O importuno, de Carlos Drummond de Andrade, publicada originalmente em 13/07/1966.

 

− Que negócio é esse? Ninguém me atende?

 

A muito custo, atenderam; isto é, confessaram que não podiam atender, por causa do jogo com a Bulgária.

 

− Mas que tenho eu com o jogo com a Bulgária, façam-me o favor? E os senhores por acaso foram escalados para jogar?

 

O chefe da seção aproximou-se, apaziguador:

 

− Desculpe, cavalheiro. Queira voltar na quinta-feira, 14. Quinta-feira não haverá jogo, estaremos mais tranquilos.

 

− Mas prometeram que meu papel ficaria pronto hoje sem falta.

 

− Foi um lapso do funcionário que lhe prometeu tal coisa. Ele não se lembrou da Bulgária. O Brasil lutando com a Bulgária, o senhor quer que o nosso pessoal tenha cabeça fria para informar papéis?

 

− Perdão, o jogo vai ser logo mais, às quinze horas. É meio-dia, e já estão torcendo?

 

− Ah, meu caro senhor, não critique nossos bravos companheiros, que fizeram o sacrifício de vir à repartição trabalhar quando podiam ficar em casa ou na rua, participando da emoção do povo…

 

− Se vieram trabalhar, por que não trabalham?

 

− Porque não podem, ouviu? Porque não podem. O senhor está ficando impertinente. Aliás, disse logo de saída que não tinha nada com o jogo com a Bulgária! O Brasil em guerra − porque é uma verdadeira guerra, como revelam os jornais − nos campos da Europa, e o senhor, indiferente, alienado, perguntando por um vago papel, uma coisinha individual, insignificante, em face dos interesses da pátria!

 

− Muito bem! Muito bem! − funcionários batiam palmas.

 

− Mas, perdão, eu… eu…

 

− Já sei que vai se desculpar. O momento não é para dissensões. O momento é de união nacional, cérebros e corações uníssonos. Vamos, cavalheiro, não perturbe a preparação espiritual dos meus colegas, que estão analisando a Seleção Búlgara e descobrindo meios de frustrar a marcação de Pelé. O senhor acha bem o 4-2-4 ou prefere o 4-3-3?

 

− Bem, eu… eu…

 

− Compreendo que não queira opinar. É muita responsabilidade. Eu aliás não forço opinião de ninguém. Esta algazarra que o senhor está vendo resulta da ampla liberdade de opinião com que se discute a formação do selecionado. Todos querem ajudar, por isso cada um tem sua ideia própria, que não se ajusta com a ideia do outro, mas o resultado é admirável. A unidade pela diversidade. Na hora da batalha, formamos uma frente única.

 

− Está certo, mas será que, voltando na quinta-feira, eu encontro o meu papel pronto mesmo?

 

− Ah, o senhor é terrível, nem numa hora dessas esquece o seu papelzinho! Eu disse quinta-feira? Sim, certamente, pois é dia de folga no campeonato. Mas espere aí, com quatro jogos na quarta-feira, e o gasto de energia que isso determina, como é que eu posso garantir o seu papel para quinta-feira? Quer saber de uma coisa? Seja razoável, meu amigo, procure colaborar. Procure ser bom brasileiro, volte em agosto, na segunda quinzena de agosto é melhor, depois de comemorarmos a conquista do Tri.

 

− E… se não conquistarmos?

 

− Não diga uma besteira dessas! Sai, azar! Vá-se embora, antes que eu perca a cabeça e…

 

Vozes indignadas:

 

− Fora! Fora!

 

O servente sobe na cadeira e comanda o coro:

 

− Bra-sil! Bra-sil! Bra-sil!

 

Estava salva a honra da torcida, e o importuno retirou-se precipitadamente.

 

(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Quando é dia de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 2014)

 

Na crônica, o chefe da seção acusa o homem que foi à repartição em busca de um documento de ser

  1. preguiçoso.
  2. egoísta.
  3. contraditório.
  4. resignado.
  5. rancoroso.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Egoísta é a opção correta porque descreve a atitude que o chefe atribui ao homem: valorização do interesse particular em prejuízo do coletivo.

No trecho o chefe ridiculariza o pedido do cidadão chamando-o de "uma coisinha individual, insignificante, em face dos interesses da pátria", acusando-o de "indiferente" e "impertinente" por não se submeter à comoção nacional pelo jogo.

Essas expressões apontam claramente para a ideia de que o homem estaria preocupado apenas com seu documento pessoal, enquanto deveria, segundo o chefe, priorizar o suposto interesse público.

Portanto, a etiqueta de egoísta corresponde à definição prática usada no texto: priorizar o próprio interesse em detrimento do coletivo, motivo da acusação.

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