Questão FC338067
Para responder a questão, leia a crônica “O amigo de infância”, de Antônio Maria. O tom era mais que o de uma queixa. De acusação: − Você não se lembra mais de mim! Eu não me lembr
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2023
Para responder a questão, leia a crônica “O amigo de infância”, de Antônio Maria.
O tom era mais que o de uma queixa.
De acusação:
− Você não se lembra mais de mim!
Eu não me lembrava daquele homem, no todo. Não lhe recordava o nome, nem tinha a menor ideia de quando o vi pela primeira ou pela última vez. Seus olhos eram, porém, meus conhecidos. Seu olhar e sua voz, ambos amargos.
Continuava a acusar-me de tê-lo esquecido. A ele, que relembrava dos nomes dos meus irmãos, da rua e da casa onde morávamos.
Eu gostaria de saber explicar-lhe que, na vida, basta haver duas pessoas para que uma esqueça a outra. E, na vida, há tanta gente. Uma explicação tão difícil que só um bêbado seria capaz de entendê-la. Aquele homem, porém, estava lúcido. E sua lucidez era, convencionalmente, a certa. Contra mim, a razão de alguém que pretendia saber por que eu o esqueci, se ele não me esqueceu? Quando eu é que devia perguntar-lhe, se possível segurando-o pelas lapelas, por que não me esqueceu, se eu o esqueci? Se ele fosse um bêbado, compreenderia. A humanidade apegou-se tanto aos convencionalismos que, hoje em dia, é muito difícil falar aos homens que não estão bêbados.
No entanto, o homem é livre e pode optar por ser autêntico. Mas não. Prefere aprisionar-se, acomodar-se cada vez mais, à significação exata e formal das palavras e dos gestos.
Afinal, deu-se a conhecer. Chamava-se Francisco e era um amigo de infância. Pedi-lhe desculpas. Abracei-o. Fui-me embora. Mas, se fosse possível convencê-lo, teria ficado para dizer-lhe que a falha não é, jamais, de quem esquece o amigo de infância. E, sim, de quem dele ainda se lembra. O natural é que o gato seja manhoso; a águia, nobre; e o homem, esquecido. Não me entenderia. Para ele, tanto quanto a águia devesse ser nobre, o homem teria obrigação de ser perfeito. Então, de nada adiantaria eu lhe ensinar que os amigos de infância, desde que se separam, serão irreconciliáveis depois quando, da infância, outra coisa não existir além do homem envelhecido. Seria possível, sim, preservar o amigo de infância se possível fosse preservar e manter a infância. O ar e a luz de suas manhãs. As cores do casario. Os cânticos e o incenso das novenas. A beleza, a coragem e as esperanças do menino.
(Adaptado de: Antônio Maria. Vento vadio. Todavia, 2001, edição digital)
O narrador confessa que o encontro inusitado com o amigo de infância, de quem não se recorda, provoca
- esperança.
- contentamento.
- frustração.
- arrependimento.
- contrariedade.
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Comentário do professor
O texto revela, desde o início, um tom de acusação — “Você não se lembra mais de mim!” — e uma reação do narrador marcada por desconforto e contrariado.
Ele descreve o olhar do outro como “amargo” e sente-se incomodado por ser cobrado por algo que considera natural: o esquecimento de pessoas do passado.
Há, assim, uma tensão entre a expectativa social de memória e a experiência pessoal do narrador, gerando irritação e mal-estar diante da cobrança.
O narrador tenta justificar o esquecimento como algo humano e inevitável, mas não consegue eliminar o incômodo do encontro.
Portanto, a palavra contrariedade resume adequadamente a mistura de irritação, desconforto e resistência diante da acusação do amigo.
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