Questão FC338071
Leia o texto para responder à questão. Quem não gosta de samba. – Como ritmos e melodias, embora tão somente sons, se assemelham a estados da alma?, pergunta Aristóteles. Há pessoa
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2023
Leia o texto para responder à questão.
Quem não gosta de samba.
– Como ritmos e melodias, embora tão somente sons, se assemelham a estados da alma?, pergunta Aristóteles. Há pessoas que não suportam a música; mas há também uma venerável linhagem de moralistas que não suporta a ideia do que a música pode suscitar nos ouvintes. Devido à sua perturbadora sensualidade, Platão condenou certas escalas e ritmos musicais e propôs que fossem banidos da pólis; Agostinho confessou-se vulnerável aos “prazeres do ouvido” e se penitenciou por sua irrefreável propensão ao “pecado da lascívia musical”; Calvino alerta os fiéis contra os perigos do caos e volúpia que ela provoca; Descartes temia que a música pudesse superexcitar a imaginação; Adorno viu na ascensão do jazz americano no pós-guerra um sintoma de regressão psíquica e de “capitulação diante da barbárie”. – O que todo esse medo da música sugere? O vigor e o tom dos ataques traem o melindre. Eles revelam não só aquilo que afirmam, mas também o que deixam transparecer. O pavor pressupõe uma viva percepção da ameaça. Será exagero portanto detectar nesses ataques um índice da especial força da sensualidade justamente naqueles que tanto se empenharam em preveni-la e erradicá-la nos outros? O que mais violentamente repudiamos está em nós mesmos. Por vias oblíquas ou com plena ciência do fato, eles sabiam do que estavam falando.
(Adaptado de: GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, edição digital)
Pensadores mencionados pelo autor do texto
- repudiam explicações falaciosas sobre a capacidade de a música ser usada como ferramenta de perpetuação de mecanismos de alienação.
- fazem uma apologia à música, pois ela se estabeleceria como fonte de alento e ânimo vital.
- consideram que a música popular promove uma cultura de consumo superficial em detrimento de uma cultura de reflexão crítica.
- advertem que a música seria capaz de evocar emoções perturbadoras e moralmente questionáveis.
- defendem a ideia de que a música é uma forma de resistência contra a opressão.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa D está correta porque o texto mostra que os pensadores citados alertam para a capacidade da música de evocar emoções perturbadoras e impulsos que são moralmente questionáveis.
O autor registra exemplos claros: Platão vê em determinadas escalas uma perturbadora sensualidade, Agostinho confessa-se vulnerável aos “prazeres do ouvido”, Calvino e Descartes receiam desordem e agitação da imaginação, e Adorno interpreta o jazz como sinal de regressão. Esses trechos sustentam a ideia de advertência.
Além disso, o próprio tom severo das críticas, observa o texto, denuncia um temor real quanto ao poder da música: eles não só afirmam riscos, como deixam transparecer uma percepção viva da ameaça. Assim, a leitura unívoca é a de que a música pode suscitar emoções e condutas que preocupam moralmente.
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