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Questão FC338075

A palavra sonho, do latim somnium, significa muitas coisas diferentes, todas vivenciadas durante a vigília, e não durante o sono. Realizei o “sonho da minha vida”, “meu sonho de co

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2023

Texto

 

[Em torno dos sonhos]

 

A palavra sonho, do latim somnium, significa muitas coisas diferentes, todas vivenciadas durante a vigília, e não durante o sono. Realizei o “sonho da minha vida”, “meu sonho de consumo” são expressões usadas cotidianamente pelas pessoas para dizer que pretendem ou conseguiram alcançar algo. Por que será que o sonho, fenômeno normalmente noturno que tanto pode evocar o prazer quanto o medo, é justamente a palavra usada para designar tudo aquilo a que se aspira?

 

O repertório publicitário contemporâneo não tem dúvida de que o sonho é a força motriz de nossos comportamentos, a motivação íntima de nossa ação exterior. Num anúncio de cartão de crédito, a promessa milagrosa: “Realizamos todos os seus sonhos”. Em outro anúncio de cartão de crédito, uma foto enorme de um casal sorridente, velejando num mar caribenho em dia ensolarado, está sobre a frase “Aonde os seus sonhos o levarão?” Deduz-se do anúncio de que os sonhos são como veleiros, capazes de levar-nos a lugares idílicos, perfeitos, altamente... desejáveis. As equações “sonho é igual a desejo que é igual a dinheiro” têm como variável oculta a liberdade de ir, ser e principalmente ter, liberdade que até os mais miseráveis podem experimentar no sonho noturno, mas que no sonho diurno é privilégio apenas dos detentores de um mágico cartão de plástico.

 

No seu famoso discurso “I have a dream” (“eu tenho um sonho”), o reverendo Martin Luther King colocou no centro do debate político norte-americano a necessidade de justiça e integração racial. Num país construído por escravos africanos, seus descendentes eram obrigados a construir o “sonho americano”, mas proibido de fruí-lo. Prêmio Nobel da paz em 1964, o dr. King foi assassinado a tiros quatro anos depois. Morreu o reverendo lutador, mas não o sonho, que vicejou e progressivamente abriu espaço para a diminuição da desigualdade racial no país. Força poderosa a dos sonhos, que continua a requerer explicação.

 

(Adaptado de: RIBEIRO, Sidarta. O oráculo da noite. A história e a ciência do sonho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p, 19-20)

 

No segundo parágrafo, o autor trata de uma relação

  1. espontânea entre a necessidade de sonhar e o efeito do consumo obsessivo a que levam os nossos sonhos mais expressivos.
  2. artificiosa, na qual os interesses do mercado se traduzem como atendimento às nossas mais íntimas aspirações pessoais.
  3. libertária entre aquilo que imaginamos ser os nossos desejos e os que efetivamente são atendidos por agentes econômicos.
  4. complexa, por meio da qual acreditamos ser nossos os sonhos que efetivamente só no realismo das finanças se revelam.
  5. conformista entre o que alimentamos como grandes sonhos e o imperativo de reduzi-los às dimensões da nossa realidade.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Artificiosa: o autor mostra que a publicidade constrói uma relação fabricada entre desejos íntimos e ofertas de consumo.

Por meio de exemplos — anúncios de cartões de crédito que prometem “realizar todos os seus sonhos” ou exibem casais em cenários idílicos — fica evidente que o mercado apresenta seus produtos como cumprimento das nossas metas pessoais.

Essa estratégia transforma fins comerciais em aspirações pessoais, fazendo crer que comprar equivale a realizar. A “variável oculta” é a ideia de liberdade associada ao consumo, disponível de fato apenas a quem tem poder aquisitivo.

Portanto, a relação é artificiosa: interesses mercadológicos são naturalizados como atendimento de desejos íntimos.

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