FC ConcursosFC Concursos

Questão FC338076

A palavra sonho, do latim somnium, significa muitas coisas diferentes, todas vivenciadas durante a vigília, e não durante o sono. Realizei o “sonho da minha vida”, “meu sonho de co

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2023

Texto

 

[Em torno dos sonhos]

 

A palavra sonho, do latim somnium, significa muitas coisas diferentes, todas vivenciadas durante a vigília, e não durante o sono. Realizei o “sonho da minha vida”, “meu sonho de consumo” são expressões usadas cotidianamente pelas pessoas para dizer que pretendem ou conseguiram alcançar algo. Por que será que o sonho, fenômeno normalmente noturno que tanto pode evocar o prazer quanto o medo, é justamente a palavra usada para designar tudo aquilo a que se aspira?

 

O repertório publicitário contemporâneo não tem dúvida de que o sonho é a força motriz de nossos comportamentos, a motivação íntima de nossa ação exterior. Num anúncio de cartão de crédito, a promessa milagrosa: “Realizamos todos os seus sonhos”. Em outro anúncio de cartão de crédito, uma foto enorme de um casal sorridente, velejando num mar caribenho em dia ensolarado, está sobre a frase “Aonde os seus sonhos o levarão?” Deduz-se do anúncio de que os sonhos são como veleiros, capazes de levar-nos a lugares idílicos, perfeitos, altamente... desejáveis. As equações “sonho é igual a desejo que é igual a dinheiro” têm como variável oculta a liberdade de ir, ser e principalmente ter, liberdade que até os mais miseráveis podem experimentar no sonho noturno, mas que no sonho diurno é privilégio apenas dos detentores de um mágico cartão de plástico.

 

No seu famoso discurso “I have a dream” (“eu tenho um sonho”), o reverendo Martin Luther King colocou no centro do debate político norte-americano a necessidade de justiça e integração racial. Num país construído por escravos africanos, seus descendentes eram obrigados a construir o “sonho americano”, mas proibido de fruí-lo. Prêmio Nobel da paz em 1964, o dr. King foi assassinado a tiros quatro anos depois. Morreu o reverendo lutador, mas não o sonho, que vicejou e progressivamente abriu espaço para a diminuição da desigualdade racial no país. Força poderosa a dos sonhos, que continua a requerer explicação.

 

(Adaptado de: RIBEIRO, Sidarta. O oráculo da noite. A história e a ciência do sonho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p, 19-20)

 

Deve-se entender que as expressões “I have a dream” (“eu tenho um sonho”), do discurso de Martin Luther King, e “sonho americano”, em seu sentido usual,

  1. convergem plenamente, como numa clara relação de causa e efeito.
  2. sustentam-se reciprocamente como aspirações vividas por um mesmo estrato social.
  3. nada dizem, efetivamente, dos interesses reais de quem a elas costuma recorrer.
  4. traduzem aspirações distintas e tensionadas em suas implicações históricas.
  5. divergem quanto aos meios de sustentar um sonho, mas não quanto à sua natureza.
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

D

Comentário do professor

“I have a dream” refere-se a uma aspiração política e coletiva: a busca por justiça racial e integração, como o texto explicita ao situar o discurso de Martin Luther King no centro do debate sobre igualdade nos EUA.

“sonho americano” remete a outra ordem de desejos: prosperidade, mobilidade social e consumo, uma expectativa individual ou social de realização material.

As duas expressões, portanto, traduzem aspirações distintas. São também tensionadas historicamente porque o texto mostra que, num país construído por escravidão, os descendentes dos escravos foram excluídos do acesso ao “sonho americano”, e o sonho de King surge justamente para confrontar essa exclusão.

Em suma: uma expressão denuncia desigualdade e reclama direitos; a outra aponta um ideal de bem-estar material — diferenças que geram conflito nas implicações históricas descritas pelo autor.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo