Questão FC338081
Leia o texto “Liberdade e necessidade ao revés”, de Eduardo Giannetti. “Por meios honestos se você conseguir, mas por quaisquer meios faça dinheiro”, preconiza – prenhe de sarcasmo
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2023
Leia o texto “Liberdade e necessidade ao revés”, de Eduardo Giannetti.
“Por meios honestos se você conseguir, mas por quaisquer meios faça dinheiro”, preconiza – prenhe de sarcasmo – o verso de Horácio. Desespero, precisão ou cobiça, dentro ou fora da lei: o dinheiro nos incita a fazer o que de outro modo não faríamos. Suponha, entretanto, um súbito e imprevisto bafejo da fortuna – um prêmio lotérico, uma indenização milionária, uma inesperada herança. Quem continuaria a fazer o que faz para ganhar a vida caso não fosse mais necessário fazê-lo? Estamos acostumados a considerar o trabalho como algo a que nos sujeitamos, mais ou menos a contragosto, para obter uma renda – como um sacrifício ou necessidade imposta de fora; ao passo que o consumo é tomado como a esfera por excelência da livre escolha: o território sagrado para o exercício da nossa liberdade individual. A possibilidade de satisfazer, ainda que parcialmente, nossos desejos e fantasias de consumo se afigura como a merecida recompensa – ou suborno, diriam outros – capaz de atenuar a frustração e aliviar o aborrecimento de ocupações que de outro modo não teríamos e não nos dizem respeito.
Daí que, na feliz expressão do jovem Marx, “o trabalhador só se sente ele mesmo quando não está trabalhando; quando ele está trabalhando, ele não se sente ele mesmo”. – Mas, se o mundo do trabalho está vedado às minhas escolhas e modo de ser; onde poderei expressar a minha individualidade? Impedido de ser quem sou no trabalho – escritório, chão de fábrica, call center, guichê, balcão –, extravaso a minha identidade no consumo – shopping, butique, salão, restaurante, showroom. Fonte de elã vital, o ritual da compra energiza e a posse ilumina a alma do consumidor. A compra de bens externos molda a identidade e acena com a promessa de distinção: ser notado, ser ouvido, ser tratado com simpatia, respeito e admiração pelos demais. Não o que faço, mas o que possuo – e, sobretudo, o que sonho algum dia ter – diz ao mundo quem sou. Servo impessoal no ganho, livre e soberano no gasto.
(Adaptado de: GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016)
No texto, o autor estabelece uma oposição entre
- cobiça e dinheiro.
- consumo e liberdade.
- sacrifício e frustração.
- trabalho e consumo.
- trabalho e sacrifício.
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Gabarito
D
Comentário do professor
No texto, o autor estabelece uma oposição clara entre trabalho e consumo: o primeiro aparece como obrigação externa; o segundo, como espaço de escolha.
O trabalho é descrito como algo a que “nos sujeitamos” — um sacrifício que impede a expressão da individualidade e reduz o sujeito a função produtiva.
Já o consumo é apresentado como “a esfera por excelência da livre escolha”, onde a pessoa recupera identidade, busca distinção e realiza desejos.
A locução concessiva “ao passo que” e a referência a Marx reforçam o contraste: exclusão de si no labor versus expressão de si no consumo.
Assim, a oposição apontada pelo autor é entre trabalho (necessidade imposta) e consumo (liberdade de escolha).
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