Questão FC338095
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. Minhas janelas Em geral as pessoas possuíram automóveis e se recordem de todos eles. Eu possuí janelas e ajuntei para a lembran
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2023
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.
Minhas janelas
Em geral as pessoas possuíram automóveis e se recordem de todos eles. Eu possuí janelas e ajuntei para a lembrança um sortido patrimônio de paisagens. Minha primeira providência em casa nova é instalar meus instrumentos de trabalho ao lado duma janela. A janela também faz parte do equipamento profissional de escritor. Sem janelas, a literatura seria irremediavelmente hermética, feita de incompreensíveis pedaços de vida, lágrimas e risos loucos, fúrias e penas.
Tive muitas janelas, e nenhuma delas mais generosa do que este de que me despeço na manhã de hoje. Amanhã cedo mudarei de casa, de janela, e até de alma, pois o meu modo de ver e viver já não será o mesmo, fatalmente. Não falo de mim, mas do que foram as janelas por meu intermédio.
Quando era menino, nunca olhei pela janela, mas fazia parte da paisagem dum quintal, doce e áspero a um só tempo, com seus mamoeiros bicados pelos passarinhos, as galinhas neuróticas em assembléia permanente, o canto intermitente de água no tanque, o azul sem morte. Só à medida que ganhamos corpo e tempo vamos aprendendo a conhecer a importância das janelas
Vou perder dentro de poucas horas esta magnífica janela, incomparavelmente a melhor peça deste apartamento, e a mais vivificante de todas as janelas em que trabalhei e morei. Peço pois um minuto de silêncio, em derradeira homenagem aos meus telhados de limo lá embaixo, minhas amendoeiras, meus pinheiros, minhas gaivotas, meu mar, minhas ilhas, minhas vagas, meus dias de ressaca, meus dias de calma, meus barcos. Dou adeus para o meu mar noturno, invisível e trágico, e adeus para este mar cheio de luz.
(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Belo Horizons: Autêntica, 2021, p. 207-208)
Ao considerar a importância das janelas em sua vida, o cronista afirma que elas lhe dão acesso tanto à paisagem externa como à sua própria alma. Essa mesma concomitância está expressa quando ele
- enumera todos os componentes da paisagem da qual está agora se despedindo.
- revela que todo escritor tem necessidade de contar com a proximidade de seus instrumentos.
- diz que em sua instância ele próprio já fazia parte da paisagem, dispensando as janelas.
- se lembra de que ouvia o canto intermitente da água no tanque e olhava o azul do céu.
- se despede de seu mar noturno e invisível, ao despedir-se do mar que está iluminado.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Alternativa E está correta porque o texto contrapõe, no mesmo trecho final, duas imagens do mar que indicam diferentes esferas de experiência: a externa, visível, e a íntima, simbólica. Observe a passagem em que o autor se despede: "dou adeus para o meu mar noturno, invisível e trágico, e adeus para este mar cheio de luz".
Essa justaposição mostra que a janela oferece acesso simultâneo à paisagem externa ("este mar cheio de luz") e à vida interior do cronista ("meu mar noturno, invisível e trágico"). A linguagem metafórica do primeiro trecho remete à alma; a descrição luminosa do segundo remete ao que é visto através da janela.
Portanto, despedir-se de ambos os mares expressa a ideia de que as janelas lhe permitem alcançar, ao mesmo tempo, cenário exterior e mundo íntimo.
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