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Questão FC338102

-Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa que só agora o conhecera. Que vem fazer aqui?

Interpretação de Textos (Compreensão)

FCC · 2023

Leia o trecho do conto "Caso da vara”, de Machado de Assis, para responder a questão.

 

Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano, foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e desandava finalmente parou. Para onde iria? Para casa, não, lá estava o pai que o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não assentara no ponto de refúgio, porque a saída estava determinada para mais tarde; uma circunstância fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do padrinho, João Carneiro, mas o padrinho era um moleirão sem vontade, que por si só não faria coisa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:

 

- Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.

 

- Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã. Moço...

 

Tal foi a entrada. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos agora na rua, espantado, incerto, sem atinar com refúgio nem conselho; percorreu de memória as casas de parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. De repente, exclamou:

 

- Vou pegar-me com Sinhá Rita! Ela manda chamar meu padrinho, diz-lhe que quer que eu saia do seminário... Talvez assim…

 

Sinhá Rita era uma viúva, querida de João Carneiro; Damião tinha umas ideias vagas dessa situação e tratou de a aproveitar. Onde morava? Estava tão atordoado, que só daí a alguns minutos é que lhe acudiu a casa; era no Largo do Capim.

 

- Santo nome de Jesus! Que é isto? bradou Sinhá Rita, sentando-se na marquesa, onde estava redinada.

 

Damião acabava de entrar espavorido;, no momento de chegar à casa, vira passar um padre, e deu um empurrão à porta, que por fortuna não estava fechada a chave nem ferrolho. Depois de entrar espiou pela rótula, a ver o padre. Este não deu por ele e ia andando.

 

-Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa que só agora o conhecera. Que vem fazer aqui?

 

Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse medo, não era nada; ia explicar tudo.

 

- Descanse, e explique-se.

 

- Já lhe digo; não pratique nenhum crime, isso juro, mas espere [...]

 

 Afinal, Damião contou tudo, o desgosto que lhe dava o seminário; estava certo de que não podia ser bom padre; falou com paixão, pediu-lhe que o salvasse.

 

- Como assim? Não posso nada. [...]

 

- Pode muito, Sinhá Rita; peço lhe pelo amor de Deus, pelo que a senhora tiver de mais sagrado, por alma de seu marido, salve-me da morte, porque eu mato-me, se voltar para aquela casa.

 

(ASSIS. Machado de 50 contos. São Paulo Companhia da Letras, 2007)

 

O 6º parágrafo permite caracterizar Damião como

  1. oportunista.
  2. compassiva.
  3. ingênua.
  4. altruísta.
  5. pessimista.
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Gabarito

A

Comentário do professor

No sexto parágrafo, Damião expõe seu desgosto com o seminário e pede a Sinhá Rita que o "salve".

Essa atitude revela oportunismo: ele procura alguém com influência sobre seu padrinho para obter um benefício imediato — sair do seminário — sem um plano ético ou íntimo de mudança.

Ao apelar à compaixão e ao prestígio de Sinhá Rita, Damião instrumentaliza relações sociais; usa a posição dela como meio para um fim pessoal.

Portanto, a caracterização como oportunista é adequada, pois o comportamento descrito mostra ação estratégica e interesseira diante de uma situação adversa.

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