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Questão FC338119

Atenção: Para responder a questão a seguir, leia o início do conto “Pilades e Orestes”, de Machado de Assis. 1. Quintanilha engendrou Gonçalves. Tal era a impressão que davam os do

Tipologia e Gênero Textual

FCC · 2024

Atenção: Para responder a questão a seguir, leia o início do conto “Pilades e Orestes”, de Machado de Assis.

 

1. Quintanilha engendrou Gonçalves. Tal era a impressão que davam os dois juntos, não que se parecessem. Ao contrário, Quintanilha tinha o rosto redondo. Gonçalves comprido. O primeiro era baixo e moreno; o segundo, alto e claro, e a expressão total divergia inteiramente. Acresce que eram quase da mesma idade. À ideia da paternidade nascia das maneiras com que o primeiro tratava o segundo; um pai não se desfaria mais em carinhos, cautelas e pensamentos.

 

2. Tinham estudado juntos. morado juntos, e eram bacharéis do mesmo ano. Quintanilha não seguiu advocacia nem magistratura, meteu-se na política; mas, eleito deputado provincial em 187..., cumpriu o prazo da legislatura e abandonou a carreira. Herdara os bens de um tio, que lhe davam de renda cerca de trinta contos de réis. Veio para o seu Gonçalves, que advogava no Rio de Janeiro.

 

3. Posto que abastado, moço, amigo do seu único amigo, não se pode dizer que Quintanilha fosse inteiramente feliz, como vais ver. Ponho de lado o desgosto que lhe trouxe a herança com ódio dos parentes; tal ódio foi que ele esteve prestes a abrir mão dela, e não o fez porque o amigo Gonçalves. que lhe dava ideias e conselhos, o convenceu de que semelhante ato seria rematada loucura.

 

4. - Que culpa tem você que merecesse mais a seu fio que os outros parentes? Não foi você que fez o testamento nem andou a bajular o defunto, como os outros. Se ele deixou tudo a você, é que o achou melhor que eles; fique-se com a fortuna, que é a vontade do morto, e não seja tolo.

 

5. Quintanilha acabou concordando. Dos parentes alguns buscaram reconciliar-se com ele, mas O amigo mostrou-lhe a intenção recôndita dos tais, e Quintanilha não lhes abriu a porta. Um desses, ao vê-lo ligado com o antigo companheiro de estudos, bradava por toda a parte:

 

6. - Ai está, deixa os parentes para se meter com estranhos; há de se ver o fim que leva.

 

7. Ao saber disto. Quintanilha comeu a contá-lo a Gonçalves, indignado. Gonçalves sorriu, chamou-lhe tolo e aquietou-lhe o ânimo; não valia a pena irritar-se por ditinhos.

 

8. — Uma só coisa desejo, continuou, é que nos separemos, para que se não diga...

 

9. — Que se não diga o quê? É boa! Tinha que ver, se eu passava a escolher as minhas amizades conforme o capricho de alguns peraltas sem-vergonha!

 

10. — Não fale assim, Quintanilha. Você é grosseiro com seus parentes.

 

11. — Parentes do diabo que os leve! Pois eu hei de viver com as pessoas que me forem designadas por meia dúzia de velhacos que O que querem é comer-me o dinheiro? Não, Gonçalves; tudo o que você quiser, menos isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu, é O meu coração.

 

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Contos: uma antologia. Volume II. São Paulo: Companhia das Letras, 1908)

O narrador manifesta-se explicitamente no próprio texto em:

  1. O primeiro era baixo e moreno; o segundo, alto e claro, e a expressão total divergia inteiramente.
  2. Tinham estudado juntos, morado juntos, e eram bacharéis do mesmo ano.
  3. Ponho de lado o desgosto que lhe trouxe a herança com ódio dos parentes.
  4. Herdara os bens de um tio, que lhe davam de renda cerca de trinta contos de réis.
  5. Posto que abastado, moço amigo do seu único amigo, não se pode dizer que Quintanilha fosse inteiramente feliz.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

"Ponho de lado o desgosto que lhe trouxe a herança com ódio dos parentes." revela a presença explícita do narrador porque emprega o verbo em primeira pessoa ("ponho").

A forma verbal indica uma atitude do próprio narrador, não apenas uma descrição dos fatos: trata‑se de uma intervenção que organiza o comentário e guia a leitura, assinalando uma opção interpretativa sobre o episódio.

Esse tipo de enunciado mostra personalidade na narrativa — o narrador se posiciona e avalia, ao invés de permanecer neutro ou meramente relatar. É a marca mais direta de manifestar‑se no texto.

Por isso, essa frase constitui manifestação explícita do narrador e justifica a escolha da alternativa correta.

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