Questão FC338122
– Acabou-se o docinho. E agora?
Tipologia e Gênero Textual
FCC · 2023
Leia o texto abaixo para responder a questão.
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
– Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor- -de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
– E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
– Acabou-se o docinho. E agora?
– Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
– Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
– Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
(LISPECTOR, Clarice. Jornal do Brasil, 06 de jun. de 1970)
Quanto ao gênero, o texto de Clarice Lispector é
- um texto didático, pois explica um conteúdo específico a alguém que não o conhece.
- uma crônica, porque a autora observa um fato do cotidiano, manifestando sua percepção subjetiva.
- um relatório, porque apresenta os resultados de um experimento observado durante uma pesquisa.
- uma biografia, pois faz um levantamento dos principais fatos da vida de uma pessoa ou personagem.
- uma notícia, pois se atém ao registro objetivo de um fato específico acontecido com determinada pessoa.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A opção indica que o texto é uma crônica. Trata‑se de uma narrativa curta em que a autora relata um episódio do dia a dia (a experiência infantil com o chicle) e o transforma em reflexão pessoal.
Em primeira pessoa, Clarice registra impressões, sentimentos e memórias — marca da subjetividade. A linguagem é próxima, coloquial e ao mesmo tempo lírica, aproximando o leitor do ponto de vista íntimo da narradora.
O fato corriqueiro serve de pretexto para uma ideia maior (o medo da eternidade), característica típica da crônica: ampliar o mundano até revelar sentido reflexivo.
Por esses elementos — enredo breve, tom pessoal e reflexão sobre o cotidiano — a classificação como crônica é adequada.
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