Questão FC338128
Considere o texto para responder a questão seguinte. Todas as sociedades definem implicitamente uma legitimidade da dor que se antecipa a circunstâncias sociais, culturais ou físic
Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
FCC · 2025
Considere o texto para responder a questão seguinte.
Todas as sociedades definem implicitamente uma legitimidade da dor que se antecipa a circunstâncias sociais, culturais ou físicas tidas como difíceis. Uma experiência acumulada do grupo leva seus membros a uma expectativa do sofrimento habitual imputável a esses fatos.
A intervenção cirúrgica ou dentária, as sequelas de ferimento etc. são precedidas pelo comentário experiente dos que já passaram pela mesma situação e se apressam em dar sua impressão ou seu conselho. O médico pode sugerir a intensidade da dor pela qual o paciente passará. Cada experiência, cada doença, cada lesão é associada a uma margem difusa de sofrimento. A sociedade indica simbolicamente os limites do licito e, fazendo isso, esforça-se por dissuadir dos possíveis excessos. A expressão individual da dor penetra no cerne de formas ritualizadas, alimentando a expectativa de suas testemunhas.
Quando um sofrimento exibido parece desproporcional em relação à causa e ultrapassa o limite tradicional, desconfia-se de complacência ou de fingimento. A reputação do ator está então em jogo. Nos casos em que é obrigatório aguentar o sofrimento com firmeza, o homem oprimido pela dor e que não corresponde à expectativa dos outros através de sua propensão à queixa e às lágrimas, expõe-se à reprovação muda ou à exortação para que se comporte melhor. Essa discrepância em relação à discrição habitual provoca atitudes opostas àquelas desejadas pelo doente: a compaixão dá lugar ao constrangimento ou à incompreensão.
Inversamente, quando a ritualização da dor pede a dramatização, compreende-se mal quem interioriza seu sofrimento e não diz nada a ninguém. Se a queixa tem valor de linguagem que confirma aos próximos o beneficio de sua presença à cabeceira do doente, sua discrição parece negar a compaixão demonstrada em seu favor. Impenetrável apesar da dor que se supõe estar sentindo, o doente parece afirmar a insignificância daqueles que se apinham ao seu lado. Sua aparente capacidade para assumir sozinho e em silêncio sua provação frustra a família, que não espera senão a queixa para prodigalizar consolo e apoio.
A dor tem ritos que não são transgredidos sem o risco de indispor ou de ofender as pessoas de boa vontade. Mesmo no horror do que está sentindo, o homem sofredor segue o caminho que as tradições lhe traçam.
(Adaptado de: LE BRETON, David. Antropologia da Dor. São Paulo: Fap-Unifesp, 2013, p. 110-111)
Se a queixa tem valor de linguagem que confirma aos próximos o beneficio de sua presença a cabeceira do doente, sua discrição parece negar a compaixão demonstrada em seu favor.
Uma redação alternativa para a frase acima, que mantém a coerência e, em linhas gerais, seu sentido, encontra-se em:
- Uma vez que se exima de queixar-se, o silêncio do doente passa a desempenhar o papel de linguagem que assevera o conforto a ele dispensado pela presença dos que lhe são próximos.
- Caso o lamento seja válido como linguagem que assevere o bem proporcionado pelos que estão junto ao doente, seu comportamento será avesso à compaixão que lhe oferecem.
- O doente, ao abster-se do lamento, que discursivamente valida o benefício proporcionado pelos que estão ao pé de seu leito, parece rejeitar a compaixão que lhe demonstram.
- A queixa do doente, desde que passe a ter um valor discursivo, confirma seu apreço pelos familiares; caso contrário, volta-se contra suas demonstrações de compaixão.
- O discernimento do doente, em termos discursivos, no momento de compaixão demonstrada em prol de sua situação, assevera o benefício do acolhimento das pessoas próximas.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A alternativa C é correta porque preserva integralmente as relações de sentido do enunciado original: mantém o sujeito (o doente), a oposição entre queixa e discrição e o efeito social dessa atitude.
Ao dizer "O doente, ao abster-se do lamento", a frase equivale a "sua discrição" do texto-base — ou seja, o silêncio do enfermo.
Em seguida, "que discursivamente valida o benefício proporcionado pelos que estão ao pé de seu leito" reexpressa com precisão a ideia de que a queixa funciona como uma linguagem que confirma a utilidade/valor da presença dos acompanhantes.
Por fim, "parece rejeitar a compaixão que lhe demonstram" reproduz fielmente o sentido de "sua discrição parece negar a compaixão demonstrada em seu favor", mantendo a mesma avaliação social sobre o silêncio do doente.
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