Questão FC338197
Respostas a tais perguntas não são fáceis de encontrar, e sobretudo não cabe antecipa-las se ainda estamos tão imersos no presente. Mas o grande ensaísta alemão Walter Benjamin, nu
Clareza e Correção
FCC · 2024
Texto
Haverá uma história da pandemia?
Haverá uma história para contar quando tudo isso acabar? Haverá razão para ouvir essa história e paciência para acompanhar as minúcias de tantas vidas interrompidas? Será narrável a magnitude dessa experiência, tão absoluta e insistente, que de um momento para outro se apoderou do mundo inteiro e não nós poupara tão cedo? Ou preferimos não narrar nada, nos render ao desejo de seguir em frente, de deixar tudo para trás, de esquecer, recalcar, ocultando de nós mesmos uma vivência desoladora e agônica, sem redenção possível?
Respostas a tais perguntas não são fáceis de encontrar, e sobretudo não cabe antecipa-las se ainda estamos tão imersos no presente. Mas o grande ensaísta alemão Walter Benjamin, num de seus textos mais conhecidos, “O narrador", talvez nos ajude a ventilar ideias e alinhavar suspeitas. É ele quem fala de uma crise de experiência que marcaria o nosso tempo. É ele quem afirma, ainda em 1936, que “as ações da experiência estão em baixa, e tudo indica que continuarão caindo até que seu valor desapareça de todo”. Estaremos cumprindo, nestes anos atípicos, o surpreendente vaticínio de Benjamin? Vivemos agora a culminação da crise, uma carência de palavras que de fato deem conta da experiência ora vivida, que de fato possam nos expressar?
Em breve frase, Benjamin contempla seu maior exemplo para o fim da transmissão das experiências humanas: a situação dos soldados que voltavam mudos da Primeira Guerra Mundial, desprovidos de histórias, “não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável”. Os muito livros posteriores em nada redimiriam tal silêncio. O caso é que a nova estratégia de guerra alienava os combatentes, confinados em trincheiras, isolados uns dos outros, sem a possibilidade de acompanhar de perto a vastidão dos acontecimentos. Dali, nada veem, tudo ouvem e estremecem. São parte inerte de uma “paisagem em que nada permanecera inalterado, exceto as nuvens, e debaixo delas, num campo de forças de torrentes e explosões, o frágil e minúsculo corpo humano”, nas palavras de Benjamin.
(Adaptado de: FUKS, Julián. Lembramos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 61-62)
É coesa e coerente a redação deste comentário sobre o texto:
- Um ensaio de Walter Benjamin propiciou de que o autor do texto veio a estabelecer uma relação entre graves experiências humanas.
- No texto em questão Walter Benjamin é referido por que um ensaio seu incutiu uma comparação a que veio a explorar o autor do texto.
- O autor do texto apoiou-se numa convicção de Walter Benjamin para relacioná-la com os efeitos da pandemia que se abateu sobre a humanidade.
- Um ensaio de Walter Benjamin foi útil para que de cujo fizesse uso o autor do texto no que diz respeito à pandemia generalizada da Covid-19.
- Ao se basear num texto de Walter Benjamin este autor discriminou a Importância de experiências que suas marcas nos fazem silenciar.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A frase afirma corretamente que o autor do texto se apoiou numa ideia de Walter Benjamin para relacioná‑la aos efeitos da pandemia.
Trata‑se de uma leitura coerente do texto: Benjamin descreve uma “crise de experiência” e exemplos de silêncio comunicacional (soldados mudos), que o autor retoma para pensar a impossibilidade de narrar plenamente a vivência pandêmica.
Do ponto de vista sintático, a construção é adequada. O verbo apoiar‑se rege a preposição em (apoiou‑se em uma convicção). A locução “para relacioná‑la” funciona como adjunto final (reduzido): indica a finalidade de basear‑se nessa convicção. O pronome ‑la retoma convicção, e a oração final “que se abateu sobre a humanidade” qualifica pandemia, formando uma frase coesa e semanticamente precisa.
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