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Questão FC338198

– Mãe, eu posso levar o sapo?

Clareza e Correção

FCC · 2024

Texto

 

O viajante clandestino

 

– Não é arvião. Diz-se: avião.

 

O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A criança tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimônio entre as coisas e os nomes. Outros a elas se assemelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra.

 

– Mãe: avioneta é a neta do avião?

 

Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe. Sala de esperas? Que o miúdo acreditava que todas as salas fossem iguais, na viscosa espera de nascer sempre menos. Ela lhe admoestou, prescrevendo juízo. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora apontou os passageiros, seus ares graves, soturnos. O menino mediu-se com aquele luto, aceitando os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo materno, fez sua a sua mão e foi à vidraça. Espreitou os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se afogou no tropel dos motores.

 

Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.

 

Seria aquele menino a fratura por onde, naquela toda frieza, espreitava a humanidade? No aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da infância. Valha-nos nós.

 

O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas dos instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços estendidos em asas. Descolava do chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçando as malas e as pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos.

 

– Arranja-te. Estamos quase a partir.

 

– Então vou despedir do passaporteiro.

 

A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava assim ao senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se deixava calar. Porque, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama:

 

– Quando for grande quero ser passaporteiro.

 

E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus.

 

– Vou estudar para migraceiro.

 

– És doido, filho. Fica quieto.

 

O miúdo guardou seus jogos, constrito. Que criança, neste mundo, tem vocação para adulto?

 

Saímos da sala para o avião. Chuviscava. O menino seguia seus passos quando, na lisura do alcatrão, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de futuros apressados?

 

O menino parou, observador, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão do asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda.

 

– Mãe, eu posso levar o sapo?

 

A senhora estremeceu de horror. Olhou vergonhada, pedindo desculpas aos passantes. Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois se teimavam. Venceu a secular maternidade. O menino, murcho como acento circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu lugar, ajeitou o cinto. Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas no seu rosto. Fiz-lhe sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grafa bandeira de felicidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho do mais clandestino de todos os passageiros.

 

(Adaptado de: COUTO, Mia. Cronicando. Lisboa: Caminho, 1991)

 

Considere o trecho a seguir.

 

A senhora estremeceu de horror. Olhou vergonhada, pedindo desculpas aos passantes. Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho [...] Venceu a secular maternidade. (19º parágrafo)

 

Mantêm-se a correção gramatical e, em linhas gerais, o sentido original do trecho acima em:

  1. Horrorizada e envergonhada, a mãe olhava para os passantes e se desculpava. Então agrediu ao filho segurando o seu braço. Venceu a maternidade, que já existia há séculos.
  2. A mãe ficou horrorizada e, envergonhada, pedia desculpas a quem passava. Imediatamente começou a disputa: ela segurava o braço do filho. Venceu a tão tradicional maternidade.
  3. A senhora estremeceu de horror e olhou envergonhada. Depois pediu desculpas às pessoas que passavam. Começava a disputa: ela puxava o filho pelo braço. Venceu a mãe, que já estava nessa função a muito tempo.
  4. Horrorizada, a senhora sentiu muita vergonha e pediu desculpas aqueles que passavam por ali. Então os dois começaram a disputa: a mãe puxando o braço do filho. Venceu a mãe com toda a sua experiência.
  5. Embora estivesse tremendo de horror, a mãe pediu desculpas às pessoas do entorno. Contudo, começou uma disputa com o filho, do qual ela havia pego o braço. Como acontece com todas as mães desde sempre, ela venceu.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A alternativa B preserva a correção gramatical e o sentido original do trecho, mantendo as relações sintáticas e o efeito explicativo do período.

O termo envergonhada vem isolado por vírgulas como adjunto adverbial de modo, indicando a maneira como a mãe ficou; a pontuação está correta para esse uso.

Em pedia desculpas a quem passava, a preposição 'a' é obrigatória: o verbo pedir desculpas rege complemento introduzido por preposição (pedir desculpas a alguém).

O uso do dois-pontos antes de ela segurava o braço do filho é adequado porque o segmento que segue explica concretamente o que era "a disputa" — função explicativa do sinal.

Finalmente, Venceu a tão tradicional maternidade mantém o sentido de “secular maternidade”: trata‑se de escolha lexical equivalente que preserva a ideia de costume antigo e vitória materna.

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