Questão FC338213
Atenção: Leia o trecho inicial do conto "O escrivão Coimbra", de Machado de Assis, para responder a questão. Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião com
Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
FCC · 2024
Atenção: Leia o trecho inicial do conto "O escrivão Coimbra", de Machado de Assis, para responder a questão.
Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, - ou depois, - um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.
Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome: mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.
Não deixou logo a irmandade: a esposa pôde contê-lo no exercício do cargo de mesário e levava-o às festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá.
Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religião. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.
Aos sessenta anos, já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.
Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas já aparecia alguém que o convidava a ficar com um bom número, comprava o número e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.
(Adaptado de: ASSIS. Machado de. Contos: uma antologia. volume II. São Paulo: Companhia das Letras. 1998)
O narrador dirige-se explicitamente a seu leitor no seguinte trecho:
- Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotos e padres.
- A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança.
- Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa.
- Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria.
- Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
"Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa." É a frase que revela o narrador dirigindo-se diretamente ao leitor. Gramaticamente, o verbo "confundas" está na 2ª pessoa do singular (forma do presente do subjuntivo usada como imperativo negativo), o que implica um interlocutor: tu não expresso.
Essa escolha retira momentaneamente o narrador da descrição em 3ª pessoa e cria um contato direto com quem lê. É um recurso de interlocução que esclarece e orienta a interpretação do conto.
Além do efeito gramatical, há um efeito retórico: a frase funciona como uma advertência e guia hermenêutico, separando intencionalmente dois tipos de fé e conduzindo a leitura.
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