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Questão FC506740

Texto Sonhos, estranhos sonhos Apesar de ser corajoso vivendo na comunidade, quando eu chegava à cidade me tornava um covarde. Ali era tudo muito estranho para mim. Havia coisas qu

Manual de Redação da Presidência da República (MRPR)

IBFC · 2024

Texto

Sonhos, estranhos sonhos

 

Apesar de ser corajoso vivendo na comunidade, quando eu chegava à cidade me tornava um covarde. Ali era tudo muito estranho para mim. Havia coisas que eu não compreendia de jeito nenhum. Coisas do tipo: disputar pelo primeiro lugar, seja no estudo, seja no esporte; meninos valentões; mães que agrediam os filhos; escola que castigava quem não obedecia às regras, entre outras coisas. Naquela ocasião, eu não podia ter a presença constante dos meus pais junto de mim, porque era a política da época que o Estado brasileiro tomasse conta de seus “índios”. Isso consistia, entre outras coisas, em manter os pais longe da escola. Hoje sei que aquilo servia para nos isolar dos que falavam a mesma língua e nos obrigar a falar e aprender somente em português.

 

Eu ficava muito triste e solitário na escola. Não tinha amigos da mesma comunidade para conversar, não tinha muito o que fazer com aquilo que eu sabia da aldeia e não podia criar muitas coisas porque o meu tempo era bem regrado pelos muitos afazeres escolares. E, claro, tinha também meus colegas, que nunca me deixavam em paz. O tempo todo estavam tirando sarro da minha cara. Bastava me verem e logo já vinha aquela enxurrada de impropérios contra mim. Parece que eles queriam mesmo que eu nunca esquecesse quem eu era e de onde eu vinha. Era o tempo todo me chamando de índio, selvagem, atrasado, sujo, fedorento... Eu, covarde que era, baixava minha cabeça e chorava baixinho.

 

Eu sempre tive, por conta disso, acho, uns sonhos bem estranhos. Neles quase sempre eu me encontrava sozinho numa grande cidade, perdido e chorando. Algumas vezes, sonhei que estava ensanguentado. O sangue escorria em meu rosto e descia até meus pés, mas eu não sabia de onde vinha, porque não estava ferido. Sonhava que estava dentro de um buraco apenas com a cabeça de fora e que meus colegas ficavam atirando palavras em cima de mim. Eram palavras mesmo. Não palavras da boca, mas objetos que eram palavras. Essas palavras que tanto me assombravam. [...]

(MUNDUKURU, Daniel. Memórias de índio: uma quase autobiografia. Porto Alegre: Edelbra, 2016, p. 65-66)

 

Em relação à redação das correspondências oficiais, é necessário atentar para o emprego dos pronomes de tratamento. Analise as afirmativas abaixo e dê valores Verdadeiro (V) ou Falso (F).

 

(   ) Não se deve usar artigo diante de pronome de tratamento, à exceção de “senhor”, “senhora” e “senhorita”.

 

(   ) Por serem formas femininas, não é aceitável que os pronomes de tratamento concordem com vocábulos flexionados no masculino, como em “Sua Excelência estava preocupado”.

 

(   ) Usa-se “Vossa Excelência” quando nos dirigimos à pessoa e “Sua Excelência” quando falamos a respeito da pessoa.

 

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de cima para baixo:

  1. V - V - F
  2. V - V - V
  3. V - F - V
  4. F - F - V
  5. F - V - V
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A sequência V-F-V está correta por três razões práticas de redação oficial.

Em primeiro lugar, a regra geral é não empregar artigo antes dos pronomes de tratamento; entretanto, há exceções: senhor, senhora e senhorita podem vir com artigo definido (ex.: o senhor, a senhora).

Quanto ao segundo ponto, embora alguns pronomes sejam gramaticalmente formais no feminino, a concordância de gênero faz-se com o gênero da pessoa a quem se refere; assim, é correto escrever Sua Excelência estava preocupado ao falar de um homem.

Por fim, usa‑se Vossa Excelência no discurso direto ao destinatário e Sua Excelência quando se fala dele em terceira pessoa (ex.: Vossa Excelência deseja esclarecer? / Sua Excelência manifestou‑se a favor.).

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