Questão FC544687
Só quem tem alma pode contar o tempo Mais um ano está começando neste janeiro, e de novo a maior parte da humanidade vai ignorar aquela pequena parcela de realistas desencantados –
Morfologia
FCC · 2025
Só quem tem alma pode contar o tempo
Mais um ano está começando neste janeiro, e de novo a maior parte da humanidade vai ignorar aquela pequena parcela de realistas desencantados – também chamados de cínicos – que aponta a arbitrariedade dos inícios e dos fins numa linha do tempo em que todos os dias são iguais. Acontece que, nesse caso, a maioria tem razão. Quem diz que todos os dias são iguais não leva em conta a necessidade humana de contar histórias a fim de dar sentido à escala desmesurada e opressiva – numa palavra, inumana – do tempo cósmico.
Como observa o crítico Frank Kermode no livro “O Sentido de um Fim”, cabe às histórias que inventamos, com seus marcos temporais atravessados de cultura, dar sentido ao intervalo entre início e fim, transformando Chrónos, o tempo infinito e amorfo dos gregos, em Kairós, o momento cheio de significado.
A palavra “ano” descende do prefixo grego “amphi”, isto é, “em torno, à volta”. Isso faz do ano um parente distante de outros termos em que está presente a ideia de círculo, de algo que circunda, que envolve por todos os lados – como ambiente, anfiteatro e anel, entre outros. “Janeiro” deve seu nome ao deus romano Jano, entidade de duas caras, capaz de olhar ao mesmo tempo para o passado e para o futuro – ou para dentro e para fora, o que explica que a palavra “janela” seja outra de suas filhas.
Eis por que sabemos que tem raízes profundas em nossa alma, indo muito além de modismos midiáticos, o frenesi que nessa época nos leva a passar em revista o ano que se encerra, tentando apurar seu saldo de altos e baixos, ao mesmo tempo que fazemos listas de “resoluções” bem-intencionadas – que, na maior parte das vezes, já estarão desmoralizadas antes do Carnaval.
(Adaptado de: RODRIGUES, Sérgio. Folha de S.Paulo, 1º de janeiro de 2025)
Quem diz que todos os dias são iguais não leva em conta a necessidade de contar histórias para que a passagem do tempo ganhe sentido.
Estará preservada a adequada articulação entre os tempos e os modos verbais da frase acima caso se substituam as formas sublinhadas, na ordem dada, por:
- disser – levaria – ganharia
- diga – levasse – tenha a ganhar
- dissesse – levaria – viesse a ganhar
- tivesse dito – levará – ganhava
- dissesse – leve – ganhasse
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Explicação: A sequência verbal proposta em C mantém a coerência temporal e modal da frase original ao deslocar todos os verbos para o mesmo contexto hipotético passado.
O verbo dissesse está no pretérito imperfeito do subjuntivo, posicionando a oração principal em um registro hipotético. Nesse quadro, o verbo da oração subordinada principal passa para o futuro do pretérito do indicativo, representado por levaria, que expressa consequência condicionada.
Por sua vez, a locução conjuntiva para que exige verbo no modo subjuntivo. O correspondente ao presente do subjuntivo original é o pretérito imperfeito do subjuntivo, aqui expresso pela perífrase viesse a ganhar, que preserva a ideia de possibilidade/resultante no mesmo quadro temporal passado.
Assim, a alternativa C assegura a adequada correlação entre tempos e modos verbais.
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