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Questão FC544749

Texto 2A1-I Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar, entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias

Semântica

CEBRASPE (CESPE) · 2025

Texto 2A1-I

 

Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar, entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias charmosas. Na cidade, eu procuro a ficção.

 

Não se trata de inventar histórias, nem de negar-se ao mundo, aos objetos e às relações formativas desta civilização carioca. Trata-se de fruir, de buscar ao longo do dia o direito a esse instante. Ele é possível até mesmo sob o sol a pino, quando você é um camelô e arruma fileiras amarelas e vermelhas de bombons Serenata de Amor sobre a lona de plástico azul na calçada, imitando a vitrine da loja de roupa de grife atrás.

 

Neste momento, você deve negar-se a qualquer entendimento sociológico da vida deste rapaz que produza compaixão, pois logo em seguida ele vai oferecer três bombons por um real com uma voz anasalada, num pregão que lembra o negro que vendia cocada em Dom Casmurro. Ele sabe que a forma de executar o pregão é decisiva para que você compre ou não o bombom. Mesmo sem ter lido Machado, ele já se apropriou das estratégias de ficção.

 

Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava, decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas com as quais convivia. Gosto de ver a reação desse carioca diante de quem faz uso de estratégias ficcionais. Não resisto a uma roda na rua, principalmente as do Largo da Carioca. Paro sempre para ver o tipo que ameaça pular no aro de bicicleta com facas espetadas para a plateia de office-boys e transeuntes diversos. Ele nunca pula, mas seus gestos e o seu tom de voz são decisivos no atraso de documentos de escritórios no centro da cidade.

 

Não é fácil negar-se ao excesso de realidade. É preciso treinamento. Gosto de treinar no carnaval. Gosto de ir a Oswaldo Cruz. Ligo minha câmera e fico sentado no meio-fio esperando a performática saída de quase cem bate-bolas de um pequeno portão de chapa de aço. Eles desfilam cores, bexigadas furiosas no chão e sons incompreensíveis. Melhor mesmo é estar dentro desse grupo, usando uma dessas fantasias e participando dessa saída explosiva. De dentro da máscara, nada ao redor é realidade. Você escolhe como contar.

 

Marcus Vinícius Faustini. Guia afetivo da periferia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (com adaptações).

 

No penúltimo período do quarto parágrafo do texto 2A1-I, a palavra “tipo” é empregada com o sentido de

  1. indivíduo.
  2. intérprete.
  3. gênero.
  4. modelo.
  5. artesão.
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Gabarito

A

Comentário do professor

No trecho "Paro sempre para ver o tipo que ameaça pular no aro de bicicleta com facas espetadas...", a palavra tipo funciona como referência a uma pessoa concreta, ao indivíduo que encena a ameaça.

O contexto evidencia que se trata de um agente em cena: há ação atribuída a esse tipo (ameaça pular, gestos, tom de voz), ou seja, é alguém que realiza condutas visíveis ao narrador e à plateia.

Além disso, no registro coloquial do português, tipo costuma equivaler a sujeito ou pessoa, usado para identificar alguém de modo informal. Aqui o emprego é exatamente esse: apontar um personagem humano observado na rua.

Portanto, o sentido adequado é indivíduo, pois o termo referencia um ser humano atuante na situação descrita.

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