Questão FC545011
Texto 2A1-I Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar, entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEBRASPE (CESPE) · 2025
Texto 2A1-I
Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar, entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias charmosas. Na cidade, eu procuro a ficção.
Não se trata de inventar histórias, nem de negar-se ao mundo, aos objetos e às relações formativas desta civilização carioca. Trata-se de fruir, de buscar ao longo do dia o direito a esse instante. Ele é possível até mesmo sob o sol a pino, quando você é um camelô e arruma fileiras amarelas e vermelhas de bombons Serenata de Amor sobre a lona de plástico azul na calçada, imitando a vitrine da loja de roupa de grife atrás.
Neste momento, você deve negar-se a qualquer entendimento sociológico da vida deste rapaz que produza compaixão, pois logo em seguida ele vai oferecer três bombons por um real com uma voz anasalada, num pregão que lembra o negro que vendia cocada em Dom Casmurro. Ele sabe que a forma de executar o pregão é decisiva para que você compre ou não o bombom. Mesmo sem ter lido Machado, ele já se apropriou das estratégias de ficção.
Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô funcionava, decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas com as quais convivia. Gosto de ver a reação desse carioca diante de quem faz uso de estratégias ficcionais. Não resisto a uma roda na rua, principalmente as do Largo da Carioca. Paro sempre para ver o tipo que ameaça pular no aro de bicicleta com facas espetadas para a plateia de office-boys e transeuntes diversos. Ele nunca pula, mas seus gestos e o seu tom de voz são decisivos no atraso de documentos de escritórios no centro da cidade.
Não é fácil negar-se ao excesso de realidade. É preciso treinamento. Gosto de treinar no carnaval. Gosto de ir a Oswaldo Cruz. Ligo minha câmera e fico sentado no meio-fio esperando a performática saída de quase cem bate-bolas de um pequeno portão de chapa de aço. Eles desfilam cores, bexigadas furiosas no chão e sons incompreensíveis. Melhor mesmo é estar dentro desse grupo, usando uma dessas fantasias e participando dessa saída explosiva. De dentro da máscara, nada ao redor é realidade. Você escolhe como contar.
Marcus Vinícius Faustini. Guia afetivo da periferia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (com adaptações).
O trecho “De dentro da máscara, nada ao redor é realidade” destacado em vermelho.
- exprime um juízo de valor sobre a realidade.
- indica uma forma de criar histórias extravagantes.
- reflete um elemento do tema central do texto.
- exemplifica uma tentativa de mudar a realidade.
- expressa uma valorização do excesso de ficção.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
O trecho "De dentro da máscara, nada ao redor é realidade" sintetiza o tema central do texto: a valorização da **ficção** como modo de existir na cidade. A máscara funciona como metáfora da prática de transformar o cotidiano em performance, permitindo ao sujeito escolher sua versão do mundo.
Ao afirmar que, estando dentro da máscara, o entorno deixa de ser realidade, o autor destaca a importância da **perspectiva** e da **narração** pessoal. Não se trata de negar fatos, mas de ressignificá-los por meio de estratégias ficcionais que tornam a experiência urbana mais sensível e inventiva.
Portanto, a frase reflete diretamente o núcleo temático do texto: a busca pelo direito de contar e viver a cidade através da imaginação e do gesto performático.
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