Questão FC545068
A luta pela reconciliação encontra abrigo nesse setor da justiça, e acredita que a reconciliação se faz por restauração do diálogo e não por cancelamentos ou prisões. O poder da tr
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2025
Os caminhos para a reconciliação
Existe um setor do nosso sistema de justiça que trabalha em nome de reconciliação. Ele atua mediando conflitos de todo tipo. Ele busca uma sociedade reconciliada, livre e madura. Eu não sabia de sua existência até ser convidada para palestrar num encontro de mulheres sobre o tema da Justiça Restaurativa, realizado em Brasília. Quando me dediquei a estudar o assunto, fiquei absolutamente perplexa e emocionada.
Qualquer pessoa que já se propôs a enfrentar um processo de reconciliação na vida, em qualquer escala, sabe que a empreitada não é fácil. Muitas vezes, ao encarar "o outro lado", a gente se dá conta de estar olhando no espelho e essa revelação é perturbadora.
Não se trata aqui de diminuir a gravidade de crimes cometidos e a responsabilidade do criminoso. Muito pelo contrário. Trata-se de uma tentativa honesta de reconciliar um país e de compreender que estruturas de poder segregacionistas produzem segregação e autorizam comportamentos. Como disse Nelson Mandela: se sabemos como ensinar pessoas a odiar umas ás outras também podemos ensiná-las a amar.
A justiça restaurativa é um conjunto ordenado e sistêmico de princípios, métodos, técnicas e atividades próprias, que visa à conscientização sobre os fatores relacionais, institucionais e sociais motivadores de conflitos. É um conceito que implica a sociedade na formação das pessoas que nela vivem. É a ideia de que a sociedade é corresponsável pelos crimes que seus membros cometem. Como poderia ser diferente? Uma sociedade que se quer inocente dos horrores que dentro dela operam não é uma sociedade justa e igualitária.
A luta pela reconciliação encontra abrigo nesse setor da justiça, e acredita que a reconciliação se faz por restauração do diálogo e não por cancelamentos ou prisões. O poder da transformação positiva de pessoas e de comunidades não será o que temos de mais humano?
(Adaptado de: LACOMBE. Milly. São Paulo: Folha de S. Paulo. 27/03/25)
Na frase ao encarar "o outro lado", a gente se dá conta de estar olhando no espelho e essa revelação é perturbadora (2º parágrafo), deve-se entender que
- a contemplação do outro pode resultar em desfiguração dos nossos mais íntimos traços.
- a percepção da imagem alheia ganha força quando contrastada com a da nossa imagem.
- o respeito à alteridade, uma vez intensificado, resulta em perda do amor-próprio.
- o reconhecimento da imagem do outro pode nos abalar como uma imagem autorrefletida.
- o enfrentamento do próximo é uma operação que corrompe a imagem que fazemos de nós.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa indica que o contato com o outro funciona como um espelho: ao reconhecer traços alheios, vemos neles algo que também existe em nós.
Esse reconhecimento não é mera semelhança superficial, mas uma identificação que confronta crenças, atitudes e responsabilidades pessoais e coletivas.
Por isso a descoberta é perturbadora: ela abala a imagem confortadora que mantemos de nós mesmos ao revelar falhas ou cumplicidades que preferíamos ignorar.
No contexto da Justiça Restaurativa, esse espelhamento é produtivo, pois estimula autocrítica e mudança, obrigando o indivíduo e a sociedade a assumirem papeis na origem dos conflitos.
Assim, a frase comunica que ver o outro pode ser tão impactante quanto olhar para si, porque o outro nos reflete como uma imagem autorrefletida.
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