Questão FC545069
Perigo da Inteligência Artificial (IA) não vem dos robôs, mas de nós Em seu livro mais recente, “The AI Mirror” (“O espelho da IA”), a filósofa americana Shannon Vallor sustenta qu
Interpretação de Textos (Compreensão)
FCC · 2025
Perigo da Inteligência Artificial (IA) não vem dos robôs, mas de nós
Em seu livro mais recente, “The AI Mirror” (“O espelho da IA”), a filósofa americana Shannon Vallor sustenta que o perigo oferecido pela inteligência artificial é muito diferente do que se costuma imaginar. O “risco existencial” para nossa espécie não viria da progressiva substituição de gente por máquinas, geradora de desemprego e, no limite, de nossa extinção. O perigo estaria em nós mesmos, em nosso enamoramento pela imagem que a IA reflete, como o de Narciso em seu lago.
Especialista em ética da tecnologia, a autora acredita que, se não abrirmos o olho, veremos “os poderes e virtudes mais vigorosos da espécie — nossa capacidade de pensamento criativo, ambição moral, imaginação política e, acima de tudo, sabedoria — serem afogados no espelho da IA”. Afogados porque rendidos, entregues de graça ou em troca de miçangas coloridas. Terceirizados, por narcisismo e preguiça, a algoritmos que se baseiam no que decidimos no passado para decidir em nosso nome no futuro. Decidir tudo: escolher gente para vagas de emprego, prender gente com base em reconhecimento facial, dosar fluxos de socorro humanitário para populações flageladas, resumir um grosso relatório em meia página.
Mas qual seria o problema disso tudo, ferramentas que podem ser tão úteis na solução de problemas? Segundo a autora, o risco é nada menos que a estagnação da espécie. Junto com o poder de decidir, estamos abrindo mão do domínio dos próprios meios para a tomada de decisões: escrever, fazer contas, projetar, raciocinar, escolher.
Todas as tecnologias sempre desafiaram moralmente os seres humanos, levando-os a conceber novos valores e formas de viver em sociedade. A seta sempre apontou para o futuro — até agora. “Precisamos abraçar, renovar e aprofundar esse aprendizado moral”, prega a autora, “porque a IA representa uma forte tentação de esquecê-lo, aceitando em seu lugar um reflexo pálido e estático daquilo que um dia soubemos a nosso respeito. Estamos diante de crises planetárias e civilizacionais que a humanidade nunca enfrentou antes. Você planejará sua escalada de uma montanha perigosa e desconhecida olhando pelo espelho, para aquilo que ficou para trás?”
(Adaptado de: RODRIGUES, Sérgio. Folha de S.Paulo. 02/04/2025.)
A consideração ética central da filósofa americana Shannon Vallor quanto ao uso progressivo da Inteligência Artificial vem expressa neste segmento do texto:
- progressiva substituição de gente por máquinas (1º parágrafo).
- ferramentas que podem ser tão úteis na solução de problemas (3º parágrafo).
- abrindo mão do domínio dos próprios meios para a tomada de decisões (3º parágrafo).
- Todas as tecnologias sempre desafiaram moralmente os seres humanos (4º parágrafo).
- A seta sempre apontou para o futuro (4º parágrafo).
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
"abrindo mão do domínio dos próprios meios para a tomada de decisões" sintetiza a preocupação ética central de Shannon Vallor: a perda do controle e da prática das capacidades humanas essenciais quando delegamos decisões às IAs.
Ao ceder o processo decisório a algoritmos que replicam escolhas passadas, arriscamo-nos a perder habilidades como raciocínio, criatividade, julgamento moral e o hábito de aprender com conflitos práticos. Essa entrega progressiva não é apenas técnica, é formativa: molda hábitos, reduz o treino da virtude intelectual e torna a espécie menos apta a enfrentar situações inéditas.
Portanto, a crítica de Vallor aponta para a necessidade de manter nosso domínio dos meios — praticando, avaliando e supervisionando decisões — para evitar a estagnação e preservar autonomia moral e cognitiva.
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