Questão FC545155
Perigo da Inteligência Artificial (IA) não vem dos robôs, mas de nós Em seu livro mais recente, “The AI Mirror” (“O espelho da IA”), a filósofa americana Shannon Vallor sustenta qu
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FCC · 2025
Perigo da Inteligência Artificial (IA) não vem dos robôs, mas de nós
Em seu livro mais recente, “The AI Mirror” (“O espelho da IA”), a filósofa americana Shannon Vallor sustenta que o perigo oferecido pela inteligência artificial é muito diferente do que se costuma imaginar. O “risco existencial” para nossa espécie não viria da progressiva substituição de gente por máquinas, geradora de desemprego e, no limite, de nossa extinção. O perigo estaria em nós mesmos, em nosso enamoramento pela imagem que a IA reflete, como o de Narciso em seu lago.
Especialista em ética da tecnologia, a autora acredita que, se não abrirmos o olho, veremos “os poderes e virtudes mais vigorosos da espécie — nossa capacidade de pensamento criativo, ambição moral, imaginação política e, acima de tudo, sabedoria — serem afogados no espelho da IA”. Afogados porque rendidos, entregues de graça ou em troca de miçangas coloridas. Terceirizados, por narcisismo e preguiça, a algoritmos que se baseiam no que decidimos no passado para decidir em nosso nome no futuro. Decidir tudo: escolher gente para vagas de emprego, prender gente com base em reconhecimento facial, dosar fluxos de socorro humanitário para populações flageladas, resumir um grosso relatório em meia página.
Mas qual seria o problema disso tudo, ferramentas que podem ser tão úteis na solução de problemas? Segundo a autora, o risco é nada menos que a estagnação da espécie. Junto com o poder de decidir, estamos abrindo mão do domínio dos próprios meios para a tomada de decisões: escrever, fazer contas, projetar, raciocinar, escolher.
Todas as tecnologias sempre desafiaram moralmente os seres humanos, levando-os a conceber novos valores e formas de viver em sociedade. A seta sempre apontou para o futuro — até agora. “Precisamos abraçar, renovar e aprofundar esse aprendizado moral”, prega a autora, “porque a IA representa uma forte tentação de esquecê-lo, aceitando em seu lugar um reflexo pálido e estático daquilo que um dia soubemos a nosso respeito. Estamos diante de crises planetárias e civilizacionais que a humanidade nunca enfrentou antes. Você planejará sua escalada de uma montanha perigosa e desconhecida olhando pelo espelho, para aquilo que ficou para trás?”
(Adaptado de: RODRIGUES, Sérgio. Folha de S.Paulo. 02/04/2025.)
Há no texto tanto o uso de conceitos como o de linguagem figurada, tal como ocorre, respectivamente, nas expressões
- enamoramento pela imagem / reflete como o de Narciso em seu lago (1º parágrafo).
- nossa capacidade de pensamento criativo / ambição moral (2º parágrafo).
- em troca de miçangas coloridas / Afogados porque rendidos (2º parágrafo).
- estagnação da espécie / escalada de uma montanha perigosa (3º/4º parágrafos).
- crises planetárias e civilizacionais / aprofundar esse aprendizado moral (4º parágrafo).
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Gabarito
D
Comentário do professor
Estagnação da espécie é um conceito abstrato que sintetiza a ideia central do texto: a possibilidade de interrupção do progresso humano em capacidades como pensamento, imaginação e julgamento. Trata‑se de uma formulação conceitual que resume um risco coletivo e normativo, não de uma imagem sensorial.
Escalada de uma montanha perigosa funciona como linguagem figurada. A expressão emprega metáfora ao comparar o enfrentamento de crises inéditas com uma subida arriscada. Os termos evocam esforço, perigo e incerteza, tornando concreta uma situação complexa e estimulando alerta moral e prudência.
A combinação mostra a estratégia do texto: expor um conceito que mobiliza reflexão e, em seguida, reforçá‑lo com uma imagem vívida para intensificar o apelo ético e prático.
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