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Questão FC545240

Em determinado momento do texto, o autor questiona: “Qual o propósito da escola senão dar chance para quem nunca entrou em campo?” Com essa indagação, Carpinejar está evidenciando

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Fênix Instituto · 2025

Escolhendo times na escola 

 

Se eu pudesse voltar atrás, não participaria dos jogos da exclusão, dos jogos da rejeição da minha infância. 

 

Teria boicotado, feito greve, discursado contra.

 

Há dores que demoram para doer. A consciência social nem sempre é pontual, nem sempre está desperta desde cedo. 

 

Eu não previa os efeitos danosos para tantos outros meninos como eu. 

 

Uma vez que eu não arcava com o preconceito, não entendia a sua influência perniciosa, o seu papel desagregador, o seu exemplo antieducacional. 

 

Nas aulas de educação física, o professor indicava dois colegas para escolher os times. Cada um desfrutava do direito de chamar, alternadamente, integrantes para sua equipe. 

 

Eu sempre fui boleiro, e terminava sendo um dos primeiros recrutados. Não penava como alvo da perseguição. Dispunha da confiança imediata dos meus semelhantes, então me calava. 

 

Depois que os melhores eram convocados, numa disputa de preferência por quem havia mostrado habilidade nas peladas do recreio, acontecia um bizarro concurso para evitar os piores no próprio time. 

 

Os capitães se digladiavam para não contar com os “pernas de pau” em sua formação. Xingavam publicamente os que sobravam no final da seletiva. 

 

Disparavam desaforos para crianças indefesas que estavam ali justamente para aprender futebol. Crianças que não tinham nenhuma obrigação de conhecer os fundamentos do esporte.

 

— Pode ficar, jogamos com um a menos.

 

— Ele não, é muito ruim.

 

— Nem colocando de goleiro.

 

— Ele não presta nem como poste.

 

Qual o propósito da escola senão dar chance para quem nunca entrou em campo? Mas vivemos num país segregador, pulando etapas, em que é difícil ensinar o básico. Parece que todo mundo deve nascer sabendo. 

 

Assim muitos jovens perderam a vontade de comparecer a interações coletivas, postos de lado já nos ensaios e treinos da vida. 

 

Eu queria pedir desculpa retroativa a todos que foram zombados nas peneiras estudantis, apelidados de “perebas” ou de “babas”, ofendidos pela sua aparência, num bullying perigoso sobre obesidade e demais características físicas. 

 

A todos que não receberam uma mísera oportunidade, um único incentivo, a proteção do acolhimento, o cuidado para se entrosar pouco a pouco, sem a hierarquia sumária de valor, sem o julgamento prévio. 

 

Lamento a minha passividade. Tão obcecado no meu desempenho, focado no meu individualismo, egoísta nos dribles, feliz com a fragilidade do adversário, eu não via na época o quanto eles sofriam com qualquer erro, qualquer passe torto, qualquer tiro a gol longe da meta, defenestrados por antecipação. Atuavam sob o signo do pânico e da opressão, para confirmar expectativas e agouros. Não se encontravam relaxados ou motivados. Experimentavam um terrorismo psicológico desmedido. Não usufruíam de paz para tentar, falhar, retomar, condenados a provar o engano nos primeiros minutos de bola rolando. A indisposição reforçava os estereótipos, os rótulos, os recalques. 

 

Já começávamos a aula derrotados moralmente.

 

Autor: Fabrício Carpinejar - GZH (adaptado)

 

Em determinado momento do texto, o autor questiona: “Qual o propósito da escola senão dar chance para quem nunca entrou em campo?” Com essa indagação, Carpinejar está evidenciando uma crítica relacionada ao ambiente escolar. O que o autor pretende destacar com essa reflexão?

  1. Defender que apenas os alunos talentosos devem participar das atividades esportivas, para que o time tenha melhor desempenho.
  2. Sugerir que a escola deve promover a inclusão e o aprendizado, oferecendo oportunidades igualitárias para todos os alunos, independentemente de suas habilidades prévias.
  3. Criticar a falta de professores especializados no ensino de esportes, responsabilizando-os pela exclusão de alunos menos habilidosos.
  4. Afirmar que o futebol é o único esporte relevante nas escolas, e, por isso, deve ser levado mais a sério pelos alunos e professores.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Com a pergunta o autor enfatiza que a escola deve ser espaço de inclusão e de oportunidades igualitárias, oferecendo chance de aprender mesmo a quem “nunca entrou em campo”.

No relato, a seletiva humilhante nas aulas de educação física expõe a exclusão por habilidade prévia. A crítica aponta para a responsabilidade educativa de promover acolhimento e permitir tentativas, erros e progresso.

Carpinejar destaca a necessidade de práticas pedagógicas que incentivem, protejam e articulem suporte para os mais fragilizados, rompendo com rótulos e estigmas que inibem a participação.

Em suma, o autor defende uma escola que prioriza o aprendizado e a inclusão, garantindo que todos tenham acesso às mesmas oportunidades independentemente de suas habilidades iniciais.

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