Questão FC545596
Sei que "meio-dia e meio" está errado; "meio" se refere a hora e tem de ficar no feminino. Sim, "meiodia e meia". Mas a língua é como a mulher de César: não lhe basta ser honesta,
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Máxima · 2025
Leia este trecho de crônica e responda à questão.
Meio-dia e meia
Acho muito simpática a maneira de a Rádio Nacional anunciar a hora: "onze e meia" no lugar de "vinte e três e trinta" [...]. Mas confesso minha implicância com aquele "meio-dia e meia".
Sei que "meio-dia e meio" está errado; "meio" se refere a hora e tem de ficar no feminino. Sim, "meiodia e meia". Mas a língua é como a mulher de César: não lhe basta ser honesta, convém que o pareça. Aquele "meia" me dá ideia de teste de colégio para pegar estudante distraído. Para que fazer da nossa língua um alçapão?
Lembrando um conselho que me deu certa vez um amigo boêmio quando lhe perguntei se certa frase estava certa ("Olhe, Rubem, faça como eu, não tope parada com a gramática: dê uma voltinha e diga a mesma coisa de outro jeito") [...] Aliás, a língua da gente não tem apenas regras: tem um espírito, um jeito, uma pequena alma que aquele "meio-dia e meia" faz sofrer. E, ainda que seja errado, gosto da moça que diz: "Estou meia triste..." Aí, sim, pelo gênio da língua, o "meia" está certo.
BRAGA, Rubem. Recado de primavera. Rio de Janeiro: Record, 1984. p. 58.
Este trecho "a língua da gente não tem apenas regras: tem um espírito, um jeito, uma pequena alma que aquele 'meio-dia e meia' faz sofrer" deixa subentendido em relação ao que o cronista quis dizer:
- O cronista está afirmando que, nesse caso (como em muitos outros em que há divergências entre a variedade padrão e a coloquial), a rigidez da regra de concordância traz desconforto, incomoda, vai contra o jeito "natural" de falar da maioria das pessoas.
- O cronista deixa claro como é vergonhoso e inconcebível, num país como no Brasil, as pessoas terem dificuldade com seu próprio idioma, e considerarem esse tipo de situação como coisa natural.
- O cronista demonstra sua insatisfação com o número gritante de pessoas com falta de interação com norma culta da língua, causando, assim, um desrespeito com a identidade do país.
- O cronista ironiza a falta de inteligência das pessoas de não serem capazes de saber nem como utilizar o próprio idioma. Realmente, para ele, uma questão só mesmo de “rir para não chorar”.
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Gabarito
A
Comentário do professor
O cronista critica a imposição estrita da norma quando ela entra em conflito com o uso comum. Ao falar que a língua tem "um espírito, um jeito, uma pequena alma", ele sugere que regras puras, sem sensibilidade ao uso, causam desconforto e soam artificiais.
Nesse caso, a expressão "meio‑dia e meia" representa o falar cotidiano da maioria. A preferência por formas mais naturais revela um choque entre a rigidez da regra e o hábito linguístico das pessoas.
Portanto, o autor defende que a gramática não deve aprisionar totalmente o uso: quando a norma colide com o jeito espontâneo de falar, impõe-se reflexão, pois a língua também vive do espírito e do uso social.
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