Questão FC545597
Sei que "meio-dia e meio" está errado; "meio" se refere a hora e tem de ficar no feminino. Sim, "meiodia e meia". Mas a língua é como a mulher de César: não lhe basta ser honesta,
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Máxima · 2025
Leia este trecho de crônica e responda à questão.
Meio-dia e meia
Acho muito simpática a maneira de a Rádio Nacional anunciar a hora: "onze e meia" no lugar de "vinte e três e trinta" [...]. Mas confesso minha implicância com aquele "meio-dia e meia".
Sei que "meio-dia e meio" está errado; "meio" se refere a hora e tem de ficar no feminino. Sim, "meiodia e meia". Mas a língua é como a mulher de César: não lhe basta ser honesta, convém que o pareça. Aquele "meia" me dá ideia de teste de colégio para pegar estudante distraído. Para que fazer da nossa língua um alçapão?
Lembrando um conselho que me deu certa vez um amigo boêmio quando lhe perguntei se certa frase estava certa ("Olhe, Rubem, faça como eu, não tope parada com a gramática: dê uma voltinha e diga a mesma coisa de outro jeito") [...] Aliás, a língua da gente não tem apenas regras: tem um espírito, um jeito, uma pequena alma que aquele "meio-dia e meia" faz sofrer. E, ainda que seja errado, gosto da moça que diz: "Estou meia triste..." Aí, sim, pelo gênio da língua, o "meia" está certo.
BRAGA, Rubem. Recado de primavera. Rio de Janeiro: Record, 1984. p. 58.
ATENTE para os itens a seguir.
I. “Depois do jantar, restaram sobre a mesa duas meias garrafas de vinho e bastantes frutas e doces”.
II. “Este ano a viagem foi bem tranquila; tinha menas pessoas nos ônibus, porque quase ninguém viajou no feriado”.
III. “A velhinha segurou o pacote que o rapaz estava lhe dando e disse: " — Muito obrigado, moço; deixei cair porque estava muito pesado".”
Entre os itens que estão redigidos, há aqueles que não estão de acordo com as regras da variedade padrão, mas sim conforme "o espírito, a pequena alma da língua". Esse(s) indício(s) de oralidade ocorre(m) em:
- Somente em I;
- Somente em II;
- Em I e II;
- Em II e III.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Na alternativa II aparecem marcas claras de oralidade: o uso de menas é variação popular de menos, não aceita na norma culta, e a construção tinha no sentido existencial equivale a havia, forma típica da fala coloquial.
Na alternativa III também há traços orais. A expressão muito obrigado é dita por uma velhinha, o que revela desvio de concordância de gênero esperado na norma culta (obrigada), mas comum na fala. Além disso, a locução deixei cair omite o pronome oblíquo o que, na variedade escrita normativa, apareceria como deixei-o cair, recurso frequente na linguagem coloquial.
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