Questão FC610824
Quais das afirmações estão de acordo com o texto?
Interpretação de Textos (Compreensão)
Com. Exam. (MPE RS) · 2025
Instrução: A questão diz respeito ao texto abaixo e a suas expressões.
Na primeira metade do século XX, os melhores intelectuais brasileiros sentiram-se convocados a decifrar uma grande esfinge: por que afinal o Brasil, decorridos mais de quatrocentos anos do Descobrimento e um século de independência, não conseguia trilhar de maneira efetiva os caminhos do desenvolvimento? Escritores, historiadores e cientistas sociais como Euclides da Cunha, Oliveira Vianna, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda buscavam compreender a nascente “identidade nacional”. Enfrentaram temas cruciais, desde então permanentes, no debate nacional, como a questão de nossa composição racial e seu papel na evolução do país, e, sobretudo, discutiram o quadro político nacional a partir de um sentimento agudo de fragilidade e limitação do arcabouço republicano — ainda pouco experimentado, mas que alguns percebiam como inviável.
Raízes do Brasi/ singulariza-se, entre as obras desse período, pela clareza do diagnóstico. Sinteticamente, o argumento de Sérgio Buarque é que não pode haver democracia e cidadania plenas onde não existe um verdadeiro Estado. No modelo político do liberalismo republicano por ele adotado, Estado, democracia e cidadania interpenetram-se e reforçam-se mutuamente, catalisados pela efetiva vigência da lei e de normas impessoais de conduta. Onde não existe um Estado verdadeiramente legal e impessoal, não pode haver nem democracia nem cidadania completas.
Mas como poderia tal Estado surgir num país com características opostas, no qual o poder público não consegue se desprender realmente do poder privado, e cuja cultura traz ainda bem nítidas as imagens do indivíduo e da família, com a peculiar dilatação que lhes imprimiu a sociedade agrária portuguesa e suas extensões coloniais no Brasil? Para Sérgio Buarque, esse era um dos principais obstáculos à constituição, no Brasil, da ordem pública necessária à democracia: toda a nossa formação histórica teria se feito em direção ....a.... uma estruturação social em que o círculo familiar é que se expande; nessa sociedade, os afetos e o interesse pessoal do “homem cordial” determinam as demais relações sociais, inclusive as de poder político, a revelia da ordem legal.
Em retrospecto, .....chamam......... a atenção em Raízes do Brasi/, e noutros livros da época, as análises exageradamente culturalistas. Nesse sentido, deve-se refletir sobre o fenômeno do c/iente/ismo e seus parentes próximos — o nepotismo, o filhotismo, o bacharelismo etc. — isto é, todo aquele conjunto de práticas que nos remetem ao grande latifúndio, ao poder dos coronéis e de suas famílias, aos currais eleitorais. Na ótica culturalista, o clientelismo do século XX seria essencialmente um arcaísmo, um conjunto de práticas que não mais se coadunaria com a etapa evolutiva alcançada pela sociedade, mas que sobreviveria por força de alguma inércia cultural; seria um morto-vivo, uma fantasmagoria, digamos, ...à.... qual o país não teria conseguido proporcionar o devido sepultamento, mas que estaria fadada a desaparecer sob os trilhos do “progresso”.
Ora, progresso, transformação estrutural, é o que não faltou no Brasil pelo menos de 1930 até o último quartel do século XX. Em tese, não se vê por que o clientelismo haveria de medrar numa sociedade como a brasileira: altamente urbanizada, demograficamente agigantada, com estrutura econômica complexa, mas socialmente esgarçada e violenta; uma sociedade totalmente integrada por uma rede de comunicações sofisticada e diversa, e por grandes grupos de mídia; com um estado e um sistema de justiça organizados e poderosos, pouco sujeitos ao controle outrora exercido pela família e pela religião. Se por clientelismo entendemos ainda aquele conjunto de práticas enraizado nos remotos tempos coloniais, o ambiente das últimas décadas com certeza não lhe é propício. Se fosse única e essencialmente uma sobrevivência cultural, já teria murchado, evaporado, desaparecido, da política brasileira. Mas práticas clientelistas continuam à vista.
A meu ver, o clientelismo não tem origem exclusiva na sociedade, de baixo para cima; parte dele sempre foi, e continua sendo, produzida a partir do próprio Estado e de sua interação com agentes econômicos, por meio da apropriação de seus mecanismos e recursos para favorecimento de amigos e familiares — ainda hoje se ...veem... interferências clientelistas em programas governamentais, por exemplo. E preciso, portanto, distinguir — e entender a relação — entre dois tipos de clientelismo. Se no primeiro, tradicional, constata-se o papel do parentesco e da pequena comunidade, no segundo, moderno, o horizonte é o conjunto do espaço econômico nacional. Se aquele é uma extensão natural de vínculos primários, este se baseia em cálculos racionais de ganho e poder político.
Extraído e adaptado de: Bolívar Lamounier, 77ibunos,
Profetas e Sacerdotes: Intelectuais e Ideologias no Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p.206-223.
Considere as três afirmações abaixo.
I. Lamounier admite que existe um tipo de clientelismo que se origina da importância das relações familiares e de interesse pessoal em certas sociedades, como concebido por Sérgio Buarque.
II. Lamounier aponta que há um outro tipo de clientelismo, que se origina da apropriação dos mecanismos e recursos do Estado para favorecimento de pessoas próximas.
II. Lamounier discorda totalmente da análise de Sérgio Buarque de Holanda das origens das relações clientelísticas no Estado brasileiro.
Quais das afirmações estão de acordo com o texto?
- Apenas I.
- Apenas II.
- Apenas III.
- Apenas I e II.
- Apenas Il e III.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Lamounier reconhece explicitamente a existência de um clientelismo de origem social, associado à ênfase nas relações familiares e nos laços pessoais descritos por Sérgio Buarque. Ele retoma a ideia do “homem cordial” e do predomínio do círculo familiar, mostrando que esse padrão explica parte das práticas clientelistas.
Ao mesmo tempo, o autor aponta outro tipo de clientelismo que nasce da apropriação de mecanismos estatais para favorecer pessoas próximas. Ele afirma que parte do clientelismo “sempre foi, e continua sendo, produzida a partir do próprio Estado” e cita interferências em programas governamentais como exemplo.
Portanto, Lamounier distingue e relaciona dois perfis: o clientelismo tradicional, enraizado em vínculos primários, e o clientelismo moderno, guiado por cálculos racionais de ganho e poder político.
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