Questão FC610825
Quais afirmações são corretas?
Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Com. Exam. (MPE RS) · 2025
Instrução: A questão diz respeito ao texto abaixo e a suas expressões.
Na primeira metade do século XX, os melhores intelectuais brasileiros sentiram-se convocados a decifrar uma grande esfinge: por que afinal o Brasil, decorridos mais de quatrocentos anos do Descobrimento e um século de independência, não conseguia trilhar de maneira efetiva os caminhos do desenvolvimento? Escritores, historiadores e cientistas sociais como Euclides da Cunha, Oliveira Vianna, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda buscavam compreender a nascente “identidade nacional”. Enfrentaram temas cruciais, desde então permanentes, no debate nacional, como a questão de nossa composição racial e seu papel na evolução do paísI, e, sobretudo, discutiram o quadro político nacional a partir de um sentimento agudo de fragilidade e limitação do arcabouço republicano — ainda pouco experimentado, mas que alguns percebiam como inviável.
Raízes do Brasi/ singulariza-se, entre as obras desse período, pela clareza do diagnóstico. Sinteticamente, o argumento de Sérgio Buarque é que não pode haver democracia e cidadania plenas onde não existe um verdadeiro Estado. No modelo político do liberalismo republicano por ele adotado, Estado, democracia e cidadania interpenetram-se e reforçam-se mutuamente, catalisados pela efetiva vigência da lei e de normas impessoais de conduta. Onde não existe um Estado verdadeiramente legal e impessoal, não pode haver nem democracia nem cidadania completas.
Mas como poderia tal Estado surgir num país com características opostas, no qual o poder público não consegue se desprender realmente do poder privado, e cuja cultura traz ainda bem nítidas as imagens do indivíduo e da família, com a peculiar dilatação que lhes imprimiu a sociedade agrária portuguesa e suas extensões coloniais no Brasil? Para Sérgio Buarque, esse era um dos principais obstáculos à constituição, no Brasil, da ordem pública necessária à democracia: toda a nossa formação histórica teria se feito em direção ....a.... uma estruturação social em que o círculo familiar é que se expande; nessa sociedade, os afetos e o interesse pessoal do “homem cordial” determinam as demais relações sociais, inclusive as de poder político, a revelia da ordem legal.
Em retrospecto, .....chamam......... a atenção em Raízes do Brasi/, e noutros livros da épocaII, as análises exageradamente culturalistas. Nesse sentido, deve-se refletir sobre o fenômeno do c/iente/ismo e seus parentes próximos — o nepotismo, o filhotismo, o bacharelismo etc. — isto é, todo aquele conjunto de práticas que nos remetem ao grande latifúndio, ao poder dos coronéis e de suas famílias, aos currais eleitorais. Na ótica culturalista, o clientelismo do século XX seria essencialmente um arcaísmo, um conjunto de práticas que não mais se coadunaria com a etapa evolutiva alcançada pela sociedade, mas que sobreviveria por força de alguma inércia cultural; seria um morto-vivo, uma fantasmagoria, digamos, ...à.... qual o país não teria conseguido proporcionar o devido sepultamento, mas que estaria fadada a desaparecer sob os trilhos do “progresso”.
Ora, progresso, transformação estrutural, é o que não faltou no Brasil pelo menos de 1930 até o último quartel do século XX. Em tese, não se vê por que o clientelismo haveria de medrar numa sociedade como a brasileira: altamente urbanizada, demograficamente agigantada, com estrutura econômica complexa, mas socialmente esgarçada e violenta; uma sociedade totalmente integrada por uma rede de comunicações sofisticada e diversaIII, e por grandes grupos de mídia; com um estado e um sistema de justiça organizados e poderosos, pouco sujeitos ao controle outrora exercido pela família e pela religião. Se por clientelismo entendemos ainda aquele conjunto de práticas enraizado nos remotos tempos coloniais, o ambiente das últimas décadas com certeza não lhe é propício. Se fosse única e essencialmente uma sobrevivência cultural, já teria murchado, evaporado, desaparecido, da política brasileira. Mas práticas clientelistas continuam à vista.
A meu ver, o clientelismo não tem origem exclusiva na sociedadeIII, de baixo para cima; parte dele sempre foi, e continua sendo, produzida a partir do próprio Estado e de sua interação com agentes econômicos, por meio da apropriação de seus mecanismos e recursos para favorecimento de amigos e familiares — ainda hoje se ...veem... interferências clientelistas em programas governamentais, por exemplo. E preciso, portanto, distinguir — e entender a relação — entre dois tipos de clientelismo. Se no primeiro, tradicional, constata-se o papel do parentesco e da pequena comunidade, no segundo, moderno, o horizonte é o conjunto do espaço econômico nacional. Se aquele é uma extensão natural de vínculos primários, este se baseia em cálculos racionais de ganho e poder político.
Extraído e adaptado de: Bolívar Lamounier, 77ibunos,
Profetas e Sacerdotes: Intelectuais e Ideologias no Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p.206-223.
Considere as afirmações abaixo, referentes ao uso de vírgulas no texto.
I. As vírgulas que delimitam “como a questão sobre nossa composição racial e seu papel na evolução do país” poderiam ser eliminadas sem prejuízo do sentido do texto.
II. As vírgulas que delimitam “e noutros livros da época” poderiam ser eliminadas sem prejuízo do sentido do texto.
III. A vírgula que segue “sofisticada e diversa” poderia ser eliminada sem prejuízo sentido do texto, mas a vírgula que segue “na sociedade” não poderia.
Quais afirmações são corretas?
- Apenas I.
- Apenas II.
- Apenas l e II.
- Apenas II e III.
- Todas.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
D
Comentário do professor
II está correta porque a expressão e noutros livros da época funciona como um elemento coordenado ao complemento em Raízes do Brasil. As vírgulas a isolam como adjunção explicativa, mas sua supressão não altera o sentido: pode-se ler perfeitamente em Raízes do Brasil e noutros livros da época.
III está correta por contraste entre duas situações. A vírgula após sofisticada e diversa é dispensável, pois separa termos coordenados ligados por e (duas locuções introduzidas por por) e sua retirada mantém a clareza. Já a vírgula após na sociedade é necessária: isola a locução explicativa de baixo para cima; suprimida, haveria leitura ambígua ou alteração sintática.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em