Questão FC610826
Instrução: A questão diz respeito ao texto abaixo e a suas expressões. Na primeira metade do século XX, os melhores intelectuais brasileiros sentiram-se convocados a decifrar uma g
Sintaxe
Com. Exam. (MPE RS) · 2025
Instrução: A questão diz respeito ao texto abaixo e a suas expressões.
Na primeira metade do século XX, os melhores intelectuais brasileiros sentiram-se convocados a decifrar uma grande esfinge: por que afinal o Brasil, decorridos mais de quatrocentos anos do Descobrimento e um século de independência, não conseguia trilhar de maneira efetiva os caminhos do desenvolvimento? Escritores, historiadores e cientistas sociais como Euclides da Cunha, Oliveira Vianna, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda buscavam compreender a nascente “identidade nacional”. Enfrentaram temas cruciais, desde então permanentes, no debate nacional, como a questão de nossa composição racial e seu papel na evolução do país, e, sobretudo, discutiram o quadro político nacional a partir de um sentimento agudo de fragilidade e limitação do arcabouço republicano — ainda pouco experimentado, mas que alguns percebiam como inviável.
Raízes do Brasi/ singulariza-se, entre as obras desse período, pela clareza do diagnóstico. Sinteticamente, o argumento de Sérgio Buarque é que não pode haver democracia e cidadania plenas onde não existe um verdadeiro Estado. No modelo político do liberalismo republicano por ele adotado, Estado, democracia e cidadania interpenetram-se e reforçam-se mutuamente, catalisados pela efetiva vigência da lei e de normas impessoais de conduta. Onde não existe um Estado verdadeiramente legal e impessoal, não pode haver nem democracia nem cidadania completas.
Mas como poderia tal Estado surgir num país com características opostas, no qual o poder público não consegue se desprender realmente do poder privado, e cuja cultura traz ainda bem nítidas as imagens do indivíduo e da família, com a peculiar dilatação que lhes imprimiu a sociedade agrária portuguesa e suas extensões coloniais no Brasil? Para Sérgio Buarque, esse era um dos principais obstáculos à constituição, no Brasil, da ordem pública necessária à democracia: toda a nossa formação histórica teria se feito em direção ....a.... uma estruturação social em que o círculo familiar é que se expande; nessa sociedade, os afetos e o interesse pessoal do “homem cordial” determinam as demais relações sociais, inclusive as de poder político, a revelia da ordem legal.
Em retrospecto, .....chamam......... a atenção em Raízes do Brasi/, e noutros livros da época, as análises exageradamente culturalistas. Nesse sentido, deve-se refletir sobre o fenômeno do c/iente/ismo e seus parentes próximos — o nepotismo, o filhotismo, o bacharelismo etc. — isto é, todo aquele conjunto de práticas que nos remetem ao grande latifúndio, ao poder dos coronéis e de suas famílias, aos currais eleitorais. Na ótica culturalista, o clientelismo do século XX seria essencialmente um arcaísmo, um conjunto de práticas que não mais se coadunaria com a etapa evolutiva alcançada pela sociedade, mas que sobreviveria por força de alguma inércia cultural; seria um morto-vivo, uma fantasmagoria, digamos, ...à.... qual o país não teria conseguido proporcionar o devido sepultamento, mas que estaria fadada a desaparecer sob os trilhos do “progresso”.
Ora, progresso, transformação estrutural, é o que não faltou no Brasil pelo menos de 1930 até o último quartel do século XX. Em tese, não se vê por que o clientelismo haveria de medrar numa sociedade como a brasileira: altamente urbanizada, demograficamente agigantada, com estrutura econômica complexa, mas socialmente esgarçada e violenta; uma sociedade totalmente integrada por uma rede de comunicações sofisticada e diversa, e por grandes grupos de mídia; com um estado e um sistema de justiça organizados e poderosos, pouco sujeitos ao controle outrora exercido pela família e pela religião. Se por clientelismo entendemos ainda aquele conjunto de práticas enraizado nos remotos tempos coloniais, o ambiente das últimas décadas com certeza não lhe é propício. Se fosse única e essencialmente uma sobrevivência cultural, já teria murchado, evaporado, desaparecido, da política brasileira. Mas práticas clientelistas continuam à vista.
A meu ver, o clientelismo não tem origem exclusiva na sociedade, de baixo para cima; parte dele sempre foi, e continua sendo, produzida a partir do próprio Estado e de sua interação com agentes econômicos, por meio da apropriação de seus mecanismos e recursos para favorecimento de amigos e familiares — ainda hoje se ...veem... interferências clientelistas em programas governamentais, por exemplo. E preciso, portanto, distinguir — e entender a relação — entre dois tipos de clientelismo. Se no primeiro, tradicional, constata-se o papel do parentesco e da pequena comunidade, no segundo, moderno, o horizonte é o conjunto do espaço econômico nacional. Se aquele é uma extensão natural de vínculos primários, este se baseia em cálculos racionais de ganho e poder político.
Extraído e adaptado de: Bolívar Lamounier, 77ibunos,
Profetas e Sacerdotes: Intelectuais e Ideologias no Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p.206-223.
Adijetivos com função de adjuntos adnominais são omissíveis num texto quando a perda de sentido não afeta a referência da expressão; se afeta, não são omissíveis. Agora, associe as duas colunas.
(1) omissível
(2) não omissível
( ) melhores
( ) brasileiros
( ) grande
( ) cruciais, desde então permanentes,
( ) agudo
Assinale a alternativa que preenche adequadamente os parênteses, de cima para baixo.
- 2-2-1-2-1
- 1-2-1-1-2
- 1-1-2-2-1
- 2-1-2-1-2
- 1-2-1-2-1
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Gabarito
A
Comentário do professor
A sequência correta é 2‑2‑1‑2‑1. Abaixo, justifico cada marcação de forma direta.
melhores — 2 (não omissível): qualifica e restringe o conjunto de intelectuais; sem esse adjetivo a referência muda para todos os intelectuais, perdendo a ideia de elite reflexiva que o texto aponta.
brasileiros — 2 (não omissível): indica a nacionalidade e delimita o referente; suprimí‑lo ampliaria ou deslocaria o sentido, alterando o foco histórico do texto.
grande — 1 (omissível): tem valor intensificador da metáfora "esfinge"; a referência à enigmática questão permanece sem alteração essencial se o adjetivo for retirado.
cruciais, desde então permanentes — 2 (não omissível): apontam caráter e duração dos temas; excluí‑los enfraqueceria o juízo sobre sua relevância contínua.
agudo — 1 (omissível): intensifica o sentimento de fragilidade, mas a ideia de limitação do arcabouço republicano subsiste sem esse intensificador.
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