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Questão FC654358

- Quer dizer que não vai ter meu aniversário?

Morfologia

FCC · 2026

Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.

 

A não-festa dos meus oito anos

 

- Quer dizer que não vai ter meu aniversário?

 

Não me lembro de ter feito a pergunta. Fiz o que pude para abafar essa lembrança - e quando muitos anos mais tarde me contaram o caso, como quem conta um episódio inocente, quis nada menos que morrer também. Eu já era um adolescente quando essa história me foi lembrada - a mim, que a havia sepultado no fundo do meu inconsciente.

 

Eu já ia fazer oito anos, mas minha mãe, recostada na cabeceira da cama, estava cercada de tias, primas, sobrinhas, amigas, e mamãe repetindo que Papai do Céu tinha levado nossa irmã. Foi então que perguntei se não ia ter meu aniversário. Ouvindo essa história, adolescente, me senti um monstro. Vergado sob a culpa tardia e envergonhado do papelão de ter pensado em bolo, salgadinhos e presentes numa hora daquelas, nossa mãe sofrendo, papelão ainda mais horrendo quando comparado ao papel bonito dos meus irmãos. O mais velho, olhos cheios de lagrimas, correu ao quarto da irmã, abriu o armário e acariciou os vestidinhos pendurados. O outro irmão compôs uma pulseirinha delicada com pequenos grampos de cabelo. Eu não pensei em nada, pois aquela morte havia destroçando o meu aniversário.

 

Diante da minha frustração, devem ter dito: vamos das alguma coisa pra esse menino, coitado - e então fomos para o centro da cidade, tia Nathalia e eu, comprar na loja alguma coisa para mim, qual coisa? - e a coisa resultou ser uma sanfoninha que quase seis décadas depois ainda está aqui, ali no alto dessa estante na minha casa de homem velho, capaz ainda de produzir música, intocada, mas tocável.

 

Só não garanto que o dono dê conta de extrair dali o "Parabéns pra você", o parabéns-para-mim que o menino de oito anos tirou sozinho, sentado na escada de uma casa onde os pais chorosos cuidavam do granito preto para o túmulo da menina que partira. A cada vez que me entrego a tais rememorações, é difícil para mim metabolizar a verdade rude dos sentimentos daquele menino que não se conformou ao ver sabotada a festa de seus oito anos.

 

(Adaptado de: WERNECK, Humberto. Esse inferno vai acabar. Porto Alegre, Arquipélago, 2011, p. 65-66)

 

Os tempos e modos verbais estão adequadamente articulados na frase:

  1. Embora não ignorasse o trágico evento daquele dia, o menino sofreu com o fracasso da comemoração que estava aguardando.
  2. Ainda que o menino tenha observado as reações de seus irmãos, nem por isso deixasse de amargar a falta da tão aguardada festa.
  3. O irmão resolveu que comporia uma delicada pulseirinha com os grampos de cabelo caso os tenha encontrado na gaveta.
  4. Se propusessem ao menino manter a comemoração de seu aniversário, possivelmente ele venha a concordar com tal proposta.
  5. No caso de que não tivesse ganhado nenhum presente, o menino experimentara uma frustração ainda maior.
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Gabarito

A

Comentário do professor

A frase está correta porque os tempos e modos verbais colocam todos os acontecimentos na mesma esfera temporal: o passado, com funções distintas e coerentes.

Em Embora não ignorasse, ignorasse aparece no pretérito imperfeito do subjuntivo, exigido por embora para marcar uma concessão passada.

Em o menino sofreu, sofreu está no pretérito perfeito do indicativo, indicando um fato pontual e concluído naquele passado.

Em que estava aguardando, estava aguardando usa o pretérito imperfeito do indicativo, mostrando uma ação contínua/estativa também no passado.

Assim, o subjuntivo expressa a concessão, o perfeito registra o efeito pontual e o imperfeito situa a expectativa como pano de fundo; a articulação é lógica e temporalmente coerente.

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