Questão FC654377
Leia a crônica “Cobrança”, de Moacyr Scliar, para responder a questão. “Cobrador usa intimidação como estratégia. Empresas de cobrança usam técnicas abusivas, como tornar pública a
Morfologia
FCC · 2022
Leia a crônica “Cobrança”, de Moacyr Scliar, para responder a questão.
“Cobrador usa intimidação como estratégia. Empresas de cobrança usam técnicas abusivas, como tornar pública a dívida.” (Cotidiano, 10.09.2001)
Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: “Aqui mora uma devedora inadimplente.”
− Você não pode fazer isso comigo − protestou ela.
− Claro que posso − replicou ele. − Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.
− Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...
− Já sei − ironizou ele. − Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.
− Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...
− Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.
Neste momento começou a chuviscar.
− Você vai se molhar − advertiu ela. − Vai acabar ficando doente.
Ele riu, amargo:
− E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.
− Posso lhe dar um guarda-chuva...
− Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.
Ela agora estava irritada:
− Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui.
− Sou seu marido − retrucou ele − e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você, devedora. Eu a avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.
Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.
(Adaptado de: SCLIAR, Moacyr. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002)
Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz. (18º parágrafo).
No trecho acima, o narrador relata alguns fatos ocorridos no passado. Um fato anterior a esse tempo passado está indicado pela seguinte forma verbal:
- Chovia.
- tornara.
- importava.
- continuava.
- carregando.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Tornara está no pretérito mais-que-perfeito simples, tempo verbal que marca uma ação ocorrida antes de outra também passada. A desinência -ra é pista direta desse tempo.
No trecho, o narrador descreve fatos no passado: chovia e continuava situam a cena. A inscrição já havia se tornado ilegível em momento anterior a essa cena, por isso o autor usa tornara para indicar essa anterioridade.
Na prática, o pretérito mais-que-perfeito simples funciona como o equivalente conciso de construções compostas como tinha se tornado ou havia se tornado, que também exprimem que uma ação ocorreu antes de outra no passado.
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