Questão FC654405
Leia o texto. Da desigualdade entre os homens Disse Plutarco que a diferença entre um animal e outro é menor do que a que vai de um a outro homem. Referia-se ele à alma e às qualid
Morfologia
FCC · 2026
Leia o texto.
Da desigualdade entre os homens
Disse Plutarco que a diferença entre um animal e outro é menor do que a que vai de um a outro homem. Referia-se ele à alma e às qualidades intelectuais. Por mim, não hesitaria em ser mais peremptório, dizendo que a diferença entre tal e tal homem é maior do que entre tal homem e tal bicho. O espírito humano comporta tantos graus quantas braças vão daqui ao céu.
No que concerne à apreciação das coisas, é espantoso que tudo julgando pelas suas qualidades específicas não nos encaremos da mesma maneira. Elogiamos um cavalo por ser vigoroso e ágil, e não por causa do arreio; elogiamos o galgo pela velocidade e não pela coleira; por que, pois, não apreciarmos o homem pelas suas qualidades específicas? É necessário julgar o homem em si e não pelos seus adornos. Como diz espirituosamente um filósofo do passado: “Sabeis por que achais grande esse homem? Porque o medis com o pedestal.”
Os cortesãos elogiavam uma de feita o imperador Juliano porque se esforçava por ser justo. “Orgulhar-me-ia de vossas louvações — disse — se viessem de pessoas que ousassem denunciar e censurar meus atos, caso me conduzisse de outra maneira.” Os aduladores de Alexandre, o Grande, repetiam-lhe sem descontinuar que ele era filho de Júpiter. Certa vez, olhando o sangue que lhe escorria de um ferimento, disse ele: “Então, que vos parece? Não achais que é um sangue vermelho como o de qualquer ser humano? Ou ele é da cor do sangue que o poeta Homero põe nos ferimentos dos deuses?”
Se um homem não tiver valor próprio não lho dará o império do mundo. Mesmo que as jovens o disputem, que por toda parte nasçam rosas sob seus pés, de que servirá tudo isso se tem a alma grosseira e o espírito lerdo? Sem vigor e sem espírito não se chega a sentir a plena felicidade, sequer a volúpia. O valor das coisas depende de quem as possui: boas para os que sabem utilizá-las, são más para quem as emprega mal. Para saborear os bens, quaisquer que sejam os que nos outorga o destino, cumpre ter o bom sentimento que a sensação cria.
(Adaptado de: MONTAIGNE, Michel. Ensaios. São Paulo: Editora 34, 2016. p. 287-294, passim)
Há adequada correlação entre os tempos e modos verbais na frase:
- Se um homem não tivesse valor próprio tampouco nem mesmo um império o valorizará.
- O valor das virtudes estará sempre na dependência de quem se sacrificasse ao exercê-las.
- Uma vez que não elogiemos um cavalo por seus arreios, não há por que nos coubesse julgar alguém por sua retórica.
- Achareis grande esse homem tão somente pela altura do pedestal em que se apoiasse?
- Os cortesãos teriam elogiado o imperador Juliano pelas qualidades que este demonstrara.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A frase correta combina uma oração principal no futuro do pretérito composto ("teriam elogiado") com uma oração relativa em pretérito mais-que-perfeito ("demonstrara").
O tempo da principal indica uma hipótese ou consequência não realizada no passado, equivalente a "teriam elogiado (se...)" ou "teriam elogiado, sob certas condições".
O pretérito mais-que-perfeito na oração subordinada expressa anterioridade em relação ao momento referido pela principal: as qualidades já haviam sido demonstradas antes do possível elogio.
Assim, a construção preserva a sequência temporal correta: primeiro, Juliano demonstrara qualidades; depois, os cortesãos, em hipótese passada, teriam elogiado por causa dessas qualidades.
Por isso, a correlação de tempos e modos é adequada e comunica claramente a hipótese passada com anterioridade temporal.
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