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Questão FC654423

Mesmo as nossas cartilhas de alfabetização tinham seus mistérios: uma das lições iniciais era a frase “A macaca é má”, com a ilustração de uma macaquinha espantada e a exploração r

Morfologia

FCC · 2022

Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

 

Brincadeiras de criança

 

Entre as crianças daquele tempo, na hora de formar grupos pra brincar, alguém separava as sílabas enquanto ia rodando e apontando cada um com o dedo: “Lá em ci-ma do pi-a-no tem um co-po de ve-ne-no, quem be-beu mor-reu, o cul-pa-do não fui eu”. Piano? Qual? Veneno? Por quê? Morreu? Quem? Tratava-se de uma “parlenda”*, como aprendi bem mais tarde, mas podem chamar de surrealismo, enigma, senha mágica, charada...

 

Mesmo as nossas cartilhas de alfabetização tinham seus mistérios: uma das lições iniciais era a frase “A macaca é má”, com a ilustração de uma macaquinha espantada e a exploração repetida das sílabas “ma” e “ca”. Ponto. Nenhuma história? Por que era má a macaquinha? Depois aprendi que “má macaca” é um parequema**. A gente vai ficando sabido e ignorando o essencial. O que, afinal, teria aprontado a má macaquinha da cartilha?

 

A grande poeta Orides Fontela usou como epígrafe de um de seus livros de alta poesia (Helianto, 1973) esta popular quadrinha de cantiga de roda:

 

“Menina, minha menina,

Faz favor de entrar na roda

Cante um verso bem bonito

Diga adeus e vá-se embora”

 

Ou seja: brincando, brincando, eis a nossa vida resumida, em meio aos densos poemas de Orides, a nossa vida, em que cada um de nós se apresenta aos outros, busca dizer com capricho a que veio no tempinho que teve e...adeus. Podem soar fundo as palavras mais inocentes: “ir-se embora”, depois da viva roda... E ir-se embora sem saber mais nada daquele copo de veneno em cima do piano ou da macaquinha da cartilha, eternamente condenada a ser má. Ir-se embora já ouvindo bem ao longe as vozes das crianças cantando na roda.

 

* parlenda: palavreado utilizado em brincadeiras infantis ou jogos de memorização.

** parequema: repetição de sons ou da sílaba final de uma palavra, no início da palavra seguinte.

 

(Adaptado de: MACEDÔNIO, Faustino. Casos de almanaque, a publicar)

 

Considerando o contexto, na frase A gente vai ficando sabido e ignorando o essencial, a relação entre os segmentos sublinhados deve ser assim entendida:

  1. o saber progressivo é causa de uma ignorância essencial.
  2. ficar sabido é uma condição para eliminar os mistérios.
  3. adquirir sabedoria é consequência de desistir dos enigmas.
  4. à proporção que mais se sabe, menos se esclarecem as superstições.
  5. o saber progressivo é concomitante com o permanecer ignorando o que mais importa.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

"A gente vai ficando sabido e ignorando o essencial" expressa ações que ocorrem ao mesmo tempo. A presença do verbo no gerúndio em ambos os segmentos indica progressão: algo vai se acumulando enquanto outra ação continua acontecendo.

A conjunção aditiva e liga as duas orações sem marcar causa ou consequência, sinalizando acréscimo de informação e simultaneidade. Assim, o enunciado comunica que o aumento do saber coexiste com a persistência da ignorância sobre o que realmente importa.

No contexto do texto, essa leitura reforça a ideia de um conhecimento superficial que cresce ao mesmo tempo em que se mantém o desconhecimento essencial, ou seja, o saber progressivo é concomitante ao permanecer ignorando o que mais importa.

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